Conversa de Sofá

Por Tiago Matias em 23/12/2016

Análise Steep

Steep é o primeiro jogo da inédita franquia de jogos de esportes radicais da Ubisoft, que aliou diferentes modalidades de esportes com um vasto mundo aberto, onde é especialista, com paisagens lindas e muitas manobras radicais, confira nossa análise.

Houve uma época em que jogar vídeo game era tarefa simples. Desde os anos 1970 até meados de 1990, a maior parte dos jogos tinham um objetivo bem claro: bater o desafio proposto por seus criadores. Passar de fase derrotando inimigo por inimigo (fosse com socos e chutes  ou no pulo sobre a cabeça), era a meta de todo jogador.

Nesse espectro, a indústria também apostou nos jogos que simulavam a prática de algum esporte (ainda que maneira precária, considerando a limitação da época). Tivemos clássicos como futebol de homens-palito, boxe de figuras que mais pareciam caranguejos e o ultra cult, Enduro.

Salto no tempo. Dezembro de 2016. Ubisoft lança Steep, um jogo de esportes radicais em mundo aberto, ambientado nos alpes suíços (localizados entre a Itália e, quem poderia imaginar, Suíça), trazendo de volta o elemento básico de todo vídeo game: desafio, puro e simples.

Com uma estrutura aberta, onde é possível percorrer as montanhas dos alpes encontrando pontos de descida ou salto, somos encorajados a praticar 04 modalidades esportivas disponíveis: Snowboard, Parapente, Wingsuit e o tradicional Ski, sendo que em cada ponto somos indicados sobre qual a modalidade deve ser praticada. Estaria mentindo se dissesse que o Snowboard não rouba a cena.

Ao encarar uma descida (ou trajeto, no caso do Parapente), precisamos ganhar pontos e subir de nível através estilos de gameplay variados: Freestyle, Explorer, Freerider e Bone Collector. Assim, somos livres a seguir a cartilha do jogo, realizando manobras precisas (Pro, Free e Extreme Rider), ou fazer nosso próprio jogo, encarando as descidas da maneira que bem entendermos (Freestyle). Também somos recompensados ao descobrir novos pontos de salto usando um binóculo ou nos aproximando do local (Explorer) ou apenas caindo com estilo (Bone Collector).

Vale dizer que as descidas são uma coleção de quedas que sem dúvida não fariam bem a ninguém, em uma avalanche (Ops!) de nocautes, fazendo de Steep um verdadeiro simulador de mortes violentas, ainda que apresentadas de forma leve e divertida. Algo como Tony Hawk encontra Jackass (um abraço pra 1999).

É aqui que perseguimos os desafios!

A cada subida de nível, são desbloqueados itens de personalização, tais como trajes, capacetes, adesivos, pranchas, e afins para cada um dos 8 personagens disponíveis, quatro homens e quatro mulheres, que podem ser alternados a qualquer momento.

Quem não adora uma personalização?

Em resumo, essa é a estrutura de Steep, algo simples e eficaz, sendo que é inevitável lembrar da época em que jogar vídeo game era a algo despretensioso, mas muito divertido. Completar cada desafio, após derrotas e mais derrotas é algo tão modesto quanto poderoso, nos fazendo querer tentar e tentar e tentar, inúmeras vezes. Bateu a frustração? Basta trocar o ponto de salto (com o aperto de um botão) e voilà, estamos diante de outro desafio!

Esse dinamismo faz com que Steep tenha um fator de replay quase infinito. Se algo deu errado durante a descida, em segundos estamos de volta ao início do trajeto, prontos para mais uma tentativa, e mais uma e mais uma. Não é raro encarar o mesmo desafio dezenas de vezes seguidas até conseguir a pontuação desejada. E mais: não há carregamentos durante o jogo, de modo que a troca de percursos ocorra instantaneamente.

Olha! Sem as mãos!

Todavia, embora Steep traga a fórmula antes explorada por outros jogos esportivos (à exceção dos esportes coletivos), falta um componente competitivo robusto, que nos faça sentir que não estamos tentando superar apenas a nós mesmos.

Explico: os outros jogadores estão lá, visíveis e sempre envolvidos em alguma atividade na montanha. Mas por vezes nos encontramos no mesmo ponto de descida, e apesar de poder enviar um convite para montar uma equipe de descida (com até 04 jogadores), não há aquela sensação de competitividade, própria de jogos de corrida. Parece que estamos em um time trial infinito, sempre batendo o nosso próprio tempo/pontuação, ou os de outro jogador, deixando na boca (ou na ponta dos dedos) o sentimento de que falta alguma coisa, sobretudo um modo versus de 2 ou mais jogadores.

Nesse contexto, parece existir uma desconexão entre a simplicidade/foco do gameplay e a moderna interface onde Steep é apresentado. Se por um lado o visual do jogo é impecável, com uma recriação fantástica dos alpes (inclusive com árvores, blocos de gelo, neve, rocha), por outro, a forma como interagimos com esse mapa e descobrimos novas atividades acaba por direcionar o jogo para sessões solo, deixando o encontro com outros jogadores ao acaso.

A exploração é livre!

Ao visualizar o mapa do jogo (aqui chamado de “vista da montanha”), temos algo parecido com o visto em Skyrim – pontos de interesse espalhados por montanhas. Cada montanha traz desafios distintos, separados pelo nível de dificuldade e estilo de gameplay. Alguns podem ser acessados desde logo, enquanto outros exigem que alcancemos o nível 20, por exemplo. Tão logo escolhemos um ponto de partida, somos imediatamente transportados àquele local, ficando livres para iniciar a descida. Não existe um lobby ou sala de espera para entrada de outros jogadores na mesma atividade. Ou você encontra alguém no topo, ou desce sozinho. Você até pode visualizar alguém no meio de uma descida (não necessariamente na mesma que a sua) e tentar interagir, com o envio de um convite, mas como dito acima, falta um caráter competitivo forte em Steep. Todos aqui são “parças”, como o próprio jogo diz.

Echo 3 para echo base: encontrei um novo ponto de descida!

Steep abraça com toda força a onda de jogos voltados ao gameplay, mas em direção oposta a Dark Souls, que foca na profundidade. Aqui o objetivo é superar o desafio proposto, sem um enredo por trás que nos faça acompanhar a trajetória do personagem.

Isso, a meu ver, é uma faca de dois gumes: se por um lado tende ao replay infinito e atrai novos jogadores casuais, fazendo com que mais pessoas possam entrar no universo dos games, de outro, impede o envolvimento de jogadores acostumados com alguma narrativa, sobretudo se considerarmos o sucesso do modo Jornada apresentado no FIFA 17, que aliou as duas mecânicas, sem tornar a jogatina maçante.

O jogo até tenta fazer o jogador crer que melhores desempenhos possuem maior impacto no universo do jogo, trazendo narrações com termos como “ganhar views”, “atrair patrocinadores”, além de desbloquear itens gravados com as marcas GoPro e Red Bull, gigantes dos esportes radicais, mas tal não se reflete na “jornada” do jogador, uma vez que não há jornada alguma.

É diante desse aspecto que podemos entender a verdadeira proposta e objetivo de Steep: a diversão.

Steep preza pelo divertimento despretensioso e, dentro dessa proposta, o faz com excelência. Por vezes me peguei repetindo de novo e de novo o mesmo desafio, até conseguir a pontuação necessária, sem que o jogo se tornasse chato ou tedioso. Pelo contrário: a possibilidade de trocar a modalidade esportiva ou trocar o ponto de partida ao toque de um botão, faz com que o jogo permaneça fresco durante muito tempo.

Tecnicamente, Steep é impecável. Gráficos belíssimos, trilha sonora bacana, design de som primoroso e localização em português com o mesmo cuidado apresentado por outros títulos desenvolvidos pela Ubisoft, como The Division e Watch Dogs 2. Não foram observados bugs relevantes, que possam comprometer a experiência com o jogo. Inclusive, Steep parece chegou no momento certo, eis que vivemos o advento da tecnologia VR.

Enfim, Steep é um game honesto que não promete mais do que pode entregar. Se você espera um game de esportes radicais, divertido e competente, é o que vai ter. Pode ser repetitivo às vezes e a interface não colabora na organização dos desafios, mas o dinamismo e o foco na ação sem enrolação ultrapassam com facilidade os pontos negativos. Steep certamente irá agradar jogadores casuais, bem como qualquer um disposto a relaxar com vídeo games. Também, acredito que os “platinadores” (que gostam de finalizar todos os desafios propostos), terão um prato cheio.

“Bença”

Com um fator replay imenso e visual de tirar o fôlego, Steep é ainda uma excelente pedida para pais que querem presentear seus filhos com um game sem violência e muita diversão.

PS: Em julho/2016, a atleta profissional Matilda Rapaport faleceu após ser atingida por uma avalanche nos Andes chilenos, durante uma filmagem para divulgação de Steep. Não observei nenhuma menção à morte dela dentro do game, mas, logo no início, Steep traz avisos de segurança para que nada do que é realizado virtualmente seja tentado na vida real por não-profissionais. RIP Matilda.

Steep foi lançado no PC, PlayStation 4 e Xbox One. Análise feita a partir de uma cópia da versão PS4 cedida pela assessoria de imprensa da Ubisoft Brasil.

Metaleiro não uniformizado. Cerveja, pizza, games e viagens ocasionais.
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