Análise DARQ Complete Edition (PS4)

Escape dos seus pesadelos resolvendo quebra-cabeças que desafiam a física e a lógica no lindo e surreal DARQ Complete Edition.

Review DARQ Complete Edition

“Ninguém consegue viver uma vida normal sem ter alguns pesadelos.” – em It, A Coisa.

No caso do protagonista de os pesadelos são a rotina, e por conta deles a vida de Lloyd pode ser tudo, menos normal. E quando menciono que a vida dele pode ser tudo não é um exagero ou figura de linguagem. Ela realmente pode ser o que o jogador quiser, ou melhor, o que entender que ela é.

A narrativa do jogo é totalmente aberta, sem explicações para o que está acontecendo ou uma história de fundo para Lloyd, aliás, até mesmo esse nome você só descobre ao pesquisar sobre o game. A única coisa que sabemos é que ele é atormentado por pesadelos cada vez mais reais. Fora isso, não existem objetivos em tela ou interface dizendo o que cada botão faz. Isso não significa que DARQ seja um game difícil de acompanhar, pelo contrário, ele é até muito simples.

DARQ Complete Edition Dream

A tarefa do jogador é fácil: escapar desse mundo onírico resolvendo quebra-cabeças que distorcem as leis da lógica e da gravidade, girando cenários, andando por paredes e teto, transformando e modificando a proporção de objetos e muito mais. E o que começa como sonhos inocentes se transforma rapidamente em algo sombrio e perigoso.

é dividido em fases, mas todas começam e terminam da mesma forma: Lloyd se deita, adormece e sai do próprio corpo, como em uma projeção astral, em direção ao mundo dos sonhos. Dentro deles resolverá uma série de puzzles para encontrar a saída. E depois repetir o ciclo na próxima fase.

É interessante que apesar da vida de Lloyd se passar dentro de pesadelos, eles de certa forma parecem ser tudo que ele tem. Não existem outras atividades fora da mente do protagonista, e quando ele está acordado a impressão é que não há nenhum outro propósito. Ele apenas subsiste dentro do próprio apartamento decrépito e solitário e a única interação possível é dormir novamente.

DARQ Teatro

Existem muitas metáforas para isso, desde uma simples solidão até assuntos mais sérios e pesados, como depressão e abuso. E algumas fases dão dicas do que pode ter acontecido ou estar acontecendo para ter afetado a mente dele a esse ponto. Mas como é tudo muito aberto e interpretativo não cheguei em nenhuma conclusão, mesmo terminando o jogo e repetindo alguns trechos para achar todos os coletáveis.

Uma fase com temática de hospital me levou a pensar se Lloyd não poderia ser um doente terminal, ou sob efeito de medicamentos fortes, que alterna entre vários estágios de coma e que os momentos “acordado” seriam também parte do sonho. Em outra fui introduzido a um perseguidor, que talvez tenha sido alguém importante, e ao mesmo tempo cruel, que deixou uma marca profunda no garoto. Por outro lado, outros cenários como o Teatro e o Trem não deram liga para essa minha interpretação seguir adiante.

É difícil chegar em uma conclusão com o que o game oferece, e entendo que para algumas pessoas essa narrativa interpretativa pode ser um ponto fraco, mas, pelo menos para mim deixou tudo mais instigante.

DARQ Puzzle das mãos

Andando pelo vale das sombras

Mas se a história (ou a falta dela) não forem um atrativo para todos, é na combinação perfeita entre arte, jogabilidade e trilha sonora que brilha.

O visual parece uma mistura do filme Frankenweenie, de Tim Burton e do jogo Inside, da Playdead. A combinação de tons monocromáticos, puxando predominantemente para o cinza, e o trabalho de iluminação criaram gráficos lindos, surreais e detalhados, mas ao mesmo tempo opressivos e tristes. Combinado a isso, a trilha sonora encaixa perfeitamente nos momentos certos para criar tensão, alívio ou dar um susto no jogador de vez em quando. E de trilha sonora o homem por trás da Unfold Games entende.

DARQ foi uma espécie de projeto paralelo para o desenvolvedor novato Wlad Marhulets, visto que seu trabalho principal, e que já lhe rendeu vários prêmios, é ser compositor de trilhas sonoras de filmes.

DARQ Complete Edition rotação de cenários

O último projeto do qual ele fez parte foi a trilha sonora do filme em realidade virtual Marshal from Detroit (2019), sobre o processo criativo do rapper Eminem e a influência da sua cidade natal nas suas letras. Para você ter uma noção do calibre das pessoas com quem, o agora desenvolvedor, já trabalhou.

No papel, DARQ é um jogo de horror, mas fora esses sustos vez ou outra, ele não avança muito nessa característica e, para mim, ele é muito mais um puzzle game com elementos de terror que o contrário. E por falar em quebra-cabeças, achei eles ótimos, na medida certa de frequência, variedade e com uma curva de aprendizagem excelente.

Rotacionar os cenários transformando a perspectiva 2,5D em 3D, ou simplesmente brincar com a gravidade para encontrar uma solução para um problema é muito gostoso e intuitivo. Alguns momentos exigirão que Lloyd se comporte de maneira furtiva e apesar dessas partes não serem minhas favoritas, elas são curtas, bem espaçadas e não atrapalham o andamento do game.

DARQ Complete Edition Edge Walk

Por se tratar de uma temática surrealista alguns desses puzzles exigirão um pensamento um pouco fora da caixa para serem completados, mas mesmo que você empaque em algum, um pouco de experimentação ou mesmo usar o método de tentativa e erro vão te tirar da escuridão.

O mesmo não pode ser dito das expansões que acompanham essa Complete Edition. Enquanto a das sete fases do jogo base é relativamente baixa, e não vão tomar mais do que 3 ou 4 horas para o jogador chegue aos créditos, as duas fases extras, A Torre e A Cripta, são recheadas de quebra-cabeças mais complexos, exigentes e, agora sim, realmente macabros.

Então, se por acaso você achar o jogo muito fácil, as expansões têm o desafio que você espera. Não vou entrar em detalhes sobre essas fases porque as surpresas que elas trazem, principalmente o final da Torre e a fase inteira da Cripta são ótimas.

Mulheres Abajur DARQ

Vale a pena?

Se você gosta de jogos de quebra-cabeças e/ou de histórias de interpretação aberta, é fascinante, lindo, surreal e recomendadíssimo.

E se você preferir jogar em outras plataformas, além do 4, ele também está disponível para PlayStation 5, Nintendo Switch, Windows, Series e Xbox One.

A análise de foi escrita com base em uma cópia de PlayStation 4 gentilmente cedida pela assessoria de imprensa do jogo.

Papai Platina
(Pouco) conhecido como Willian. Marido, pai de três filhos maravilhosos, fã de Stephen King, filmes toscos e trophy hunter nas horas vagas. No Twitter como @papaiplatina e willianmarques na PSN.