Análise Hades (PS4 e PS5)

Hades chega aos consoles da Sony trazendo uma junção perfeita entre gameplay e narrativa, além de personagens carismáticos.

Hades tela título

Quase dois anos depois de sua primeira versão lançada em early access na Epic Games e Steam, o rogue-like da Supergiant Games dá as caras nos consoles da Sony. Mas o que há para ser acrescentado sobre um jogo que foi sucesso em todas as plataformas em que foi lançado?

O bom filho à casa torna (de novo e de novo)

Hades é um jogo de ação em 2D (visão isométrica) com elementos de e tão celebrada estrutura rogue-like que faz com que, a cada morte, voltemos ao início do jogo, perdendo quase todo nosso progresso. Além disso, o traz ação hack n’ slash com ambientação fechada, típica de dungeon crawlers. Só essa linha já valeu a escrita do nosso Glossário Gamer.

Apresentação do jogo Hades
A apresentação de Hades é impecável.

Você já viu isso em outros jogos como Moonlighter, , e, mais recentemente, no igualmente aclamados Returnal e Deathloop. No jogo acompanhamos a saga de Zagreu, filho do senhor do mundo dos mortos (que dá nome ao jogo), que em um rompante de rebeldia, resolve fugir do mundo subterrâneo para juntar-se aos deuses do Olimpo.

Como nada é fácil nessa vida, Zagreu terá que enfrentar hordas de inimigos para completar seu objetivo, mas ele não está sozinho nessa empreitada, pois poderá contar com auxílio dos poderosos irmãos de seu pai e alguns outros amigos.

Zagreu escolhe o upgrade
Escolher a bênção certa faz toda diferença

Se por um acaso você estava debaixo de uma rocha no último ano e nunca ouviu falar de Hades, vem comigo que eu te conto.

A jogabilidade é bastante simples. As fases são basicamente arenas fechadas onde Zagreu deve derrotar todos os inimigos, usando todas as armas e habilidades possíveis. O combate consiste em desferir ataques normais, ataques especiais, tiro e movimentar-se (muito) com a corrida normal ou com arranque/impulso para desviar dos inimigos.

Ao final de cada área recebemos uma recompensa, que pode ser uma benção de algum deus do olimpo, moedas ou itens. Logo em seguida, após escolher a benção, podemos escolher um caminho para ir até a próxima arena, que dá um spoiler da recompensa que estará disponível ao final. Dessa forma, o progresso em Hades não é um salto no escuro e podemos, de certa forma, escolher como construiremos as habilidades do personagem.

Escolha da bênção em Hades
É possível ter algum controle sobre a progressão, antecipando a bênção ou item da próxima arena.

As bênçãos são, na prática, os upgrades de Zagreu e com o tempo podemos acumular várias melhorias do mesmo deus e construir uma tentativa de fuga com foco em força, agilidade ou ataque em área. Tudo depende das bênçãos escolhidas e das melhorias equipadas, que são desbloqueadas com a entrega de uma garrafa de Néctar, um presente a qualquer dos personagens.

Embora a jogabilidade seja simples (correr, golpear e desviar), existe uma ampla gama de itens desbloqueáveis e melhorias que alteram a abordagem de cada tentativa. Acredito que o estilo de progressão trazida em seja o mais próximo possível do que vemos em Hades. Cada nova tentativa é caracterizada pela arma escolhida e pelas habilidades que se mostram disponíveis e ao morrermos, perdemos quase tudo. Um Rogue-Likepor excelência.

Zagreu entra em uma arena
Hora de lutar… de novo!

No entanto, o gameplay de Hades é simples mas não é fácil. A cada nova sala os inimigos escalam de dificuldade e ganham armaduras, tornando-os mais perigosos. Novas fases apresentam novos desafios à altura das melhorias que encontramos então, não é tão fácil passar por tudo. Algumas arenas são construídas como desafios para tirar-nos o máximo de vida possível, impactando severamente o avanço até o chefe de área. O jogo exige habilidade e reflexos rápidos e sangue frio para bater levando o mínimo de dano possível, uma vez que os poucos itens que restauram a vida do personagem custam moedas que nem sempre temos à mão.

Apesar da dificuldade que pode levar à frustração, Hades possui um ciclo de gameplay absurdamente viciante. Tudo acontece de forma rápida e após a morte podemos em poucos segundos voltar ao campo de batalha (claro, pulando diálogos opcionais) para tentar de novo e de novo, com sangue nos olhos para tentar chegar mais longe. Em um resumo bem direto: Hades possui um gameplay polido à perfeição.

O inferno não é tão ruim assim

Se a apresentação visual fica em segundo plano quando o gameplay é bom, a Supergiant Games conseguiu unir o melhor dos dois mundos elevando a gráficos e som ao alto nível da jogabilidade e, assim, Hades é um jogo belíssimo.

Megaira em Hades
Megaira e Zagreu tem uma relação de prazer e dor.

Com gráficos que mesclam ambientação em 2D com objetos tridimensionais e uma direção de muito peculiar que lembra páginas de uma revista em quadrinhos. A trilha sonora alterna entre momentos de tranquilidade e ação com naturalidade, utilizando temas que nos remetem a imagens e sensações do mediterrâneo e outros mais calcados em batidas fortes, para dar a tônica frenética dos combates, tudo de maneira competente. Some-se isso à inclusão de algumas músicas belíssimas na trilha sonora e temos a formula do sucesso.

Em relação à parte técnica, Hades também não deixa a desejar. As animações de personagens e inimigos são perfeitas, fluindo em 60 quadros por segundo e resolução de 4K no 5 (full HD no PS4). O jogo possui legendas em português e menus e a versão de PS4 dá direito ao upgrade para 5 (infelizmente, sem cross save). Tudo colabora para dar máxima satisfação ao jogador.

Falando em personagens, talvez esse seja o ponto que Hades mais se destaca. A Supergiant Games conseguiu aliar o gameplay polido a um estilo de narrativa que lembra um romance visual, colocando muito cuidado na caracterização dos personagens, desde a concepção visual até a personalidade e a interação com Zagreu e, por vezes, entre eles próprios, resultando em níveis de carisma que geralmente vemos em títulos AAA.

Hipnos conversa com Zagreu
Todos os personagens tem bons diálogos relacionados aos acontecimentos do jogo.

O exemplo mais fácil é a interação entre Zagreu e Megaira, chefe da primeira fase do jogo. Os diálogos entre eles são afiados e deixam transparecer a toda a intimidade e rivalidade entre os dois, além de não se repetirem a cada encontro. “Meg” sempre tem algo novo para falar para Zagreus, nem que seja para que ele fique longe dela nos momentos de descanso. Esse mesmo cuidado existe na interação entre Zagreu e seu pai, Hades. O relacionamento deles é desenvolvido de maneira inteligente e com bom humor, mesmo que sejam personagens antagônicos, afinal Zagreu quer ir embora e Hades não o autoriza. A excelente apresentação de personagens vale para todos eles, desde Zeus e outros deuses olimpianos, até as figuras menos relevantes no panteão do submundo, como o barqueiro Caronte, o condenado Sísifo e o companheiro de treinamento, Zé Caveira.

A segunda fase do jogo, Asfodelo
O mundo dos mortos é quentinho e aconchegante.

A formula do sucesso

Não é toda vez que um jogo consegue acertar tantos pontos positivos ao mesmo tempo. Geralmente, o que sobra em jogabilidade, falta em apresentação ou, ainda, deixa a desejar na trilha sonora ou na construção dos personagens. No entanto, Hades mostra excelência em todos os aspectos. Eu mesmo não sou o maior fã do gênero e tenho bastante dificuldade com jogos que exigem reflexos instantâneos, mas não consigo pensar em um aspecto negativo sequer. Tudo é bom e muito bem feito.

Hades Campos Elíseos
Os cenários de Hades são belos e mortais.

A Supergiant Games conseguiu elevar o valor de produção de um jogo indie a um nível que muitos AAA gostariam de chegar, provando um jogo com ideias simples, mas bem implementadas são melhores que colocar várias mecânicas sem o devido polimento.

Portanto, se você esteve dentro de uma caverna nos últimos 02 anos, sem nenhum console de videogame ou PC, talvez queira recuperar o tempo perdido com um dos melhores jogos lançados desde então.

Hades foi desenvolvido e publicado pela Supergiant Games e está disponível para PC, 4, PlayStation 5, Xbox One e X/S.

A análise foi feita com base em uma cópia digital, gentilmente cedida pela assessoria de imprensa do jogo rodando em um 5.

Tiago Matias Escobar
Metaleiro não uniformizado. Cerveja, pizza, games e viagens ocasionais.