Análise ELEX 2 (PS4 e PS5)

ELEX 2 é um jogo de RPG de mundo aberto em terceira pessoa com muita ambição e sérios problemas. Confira nossa análise.

Key Art ELEX II

Os últimos anos foram generosos com os jogadores de videogames. Com excelentes jogos lançados, tivemos bons exemplos de jogos que superaram expectativas e ainda aqueles que correram atrás do prejuízo para oferecer um produto decente após um lançamento desastroso. No Man’s Sky é um caso de produto que ressurgiu das cinzas, tal como também ocorreu com Fallout 76. Por outro lado, é um caso emblemático de falha catastrófica no desenvolvimento que resultou em um jogo quebrado, para dizer o mínimo.

Dito isto, é de se imaginar que outras desenvolvedores não queiram incorrer no mesmo erro da CD Projekt Red e buscam otimizar os recursos disponíveis, a fim de entregar o melhor jogo possível aos consumidores. No entanto, o que seria o melhor jogo possível? Seria buscar a excelência técnica de Witcher 3 Wild Hunt e da série Forza Horizon? Ou a simplicidade bem resolvida de Celeste? Seja qual for a lente pela qual você escolher observar os jogos, não atinge nem um e nem outro. 

Jax olhando para a camera
Jax, o protagonista de

propõe-se a ser um jogo de RPG de ação em terceira pessoa, com ambientação de mundo aberto em um universo fictício que combina fantasia medieval e pós-apocalíptica, com ficção científica. Algo próximo a uma união entre The Witcher e Mass Effect Andromeda. Com uma proposta dessa magnitude, tem um desafio tão grande quanto a missão de seu protagonista, Jax que é incumbido de unir todas as facções existentes no mundo de Magalan para enfrentar a ameaça de uma invasão alienígena.

O jogo começa com o protagonista Jax fugindo após ter sua casa destruída pelos alienígenas chamados Skyans, em uma fuga que funciona como o tutorial do jogo.  Até aí tudo corria bem, mas quando assumimos o controle de Jax as coisas dão uma guinada nada suave rumo ao desespero…

Jax luta contra um ogro em ELEX 2
Cada facção fornece equipamentos próprios para Jax (créditos: divulgação)

Trinta Frames Tristes 

Acho que dizer que é um título AA é ser generoso demais e injusto com outros jogos da categoria que chegam no limite do orçamento para entregar experiências bem pensadas (como Returnal, por exemplo). parece não entender muito bem em que lugar quer se posicionar. O mundo aberto apresentado é vasto, mas com um visual monótono e a exploração é desequilibrada (não é raro encontrar inimigos muito acima do nosso nível logo nos arredores da base central) e a própria movimentação no cenário é estranha com Jax se deslocando a pé para lugares longínquos. A movimentação simplória cede espaço para o bem pensado uso de um Jetpack, um ótimo recurso logo no começo do jogo, que nos ajuda a traspor obstáculos e contornar montanhas com facilidade.

Jax voando com jetpack
É possível voar utilizando um Jetpack! (créditos: divulgação)

Nessa aventura de localizar facções e conseguir o auxílio delas para enfrentar os Skyans, Jax vai se divertir com a fauna local, que quase sempre irá tentar dar cabo do nosso protagonista. Encontramos então mais um problema do jogo, pois o combate embora seja funcional, passa longe do refinamento que encontramos em outros jogos. Um destaque especial fica para o sistema de parry que simplesmente não funciona. segue a cartilha dos RPGs de ação modernos, com vários itens para serem coletados no cenário, desde espólios úteis até sucata e porcarias que serão vendidos para obtermos recursos. Ainda assim, haja recursos a ser vendido, pois novas armas e armaduras custam um bocado, além de exigir um pensamento estratégico na aquisição, pois Jax não pode usar itens que estão acima de seu nível atual.

Jax usando armadura avançada
Os equipamentos avançados dão a sensação de progressão em ELEX 2 (créditos: divulgação)

Os gráficos apresentados são todo um sofrimento à parte. Digno do início da geração do PlayStation 3 e Xbox 360, o visual de chega a ser engraçado, sobretudo as expressões faciais dos personagens que pouco ou nada parecem com as representações em artes do jogo. Jax, que nas cutscenes lembra um herói de ação tal qual Jason Statham, quando mostrado pela engine gráfica do jogo parece mais Renato Aragão, saído diretamente de uma ficção científica brasileira dos anos 1980. Também Caja, a poderosa feiticeira com quem Jax tem um passado concretizado em uma criança possui uma aparência de dar dó. Ao menos ela possui uma personalidade forte e crível (falarei mais disso adiante). Pude observar que a qualidade foi reservada aos modelos em 3D dos inimigos que, justiça seja feita, são bem mais detalhados do que dos personagens e NPCs. Também não ajuda nada na aparência do jogo a ocorrência de bugs no cenário, como árvores voadoras ou problemas de colisão entre o personagem e os inimigos.

Também não se pode exigir muito em relação à performance do jogo, pois ELEX 2 quase não entrega 30 frames por segundo no PlayStation 5, rodando com muito custo. Tenho para mim que a versão de PC deve ser melhor otimizada do que a dos consoles, mas deixo para vocês descobrirem e me contar. Mas se tem algo que não se pode reclamar é da parte sonora que funciona a contento, inclusive trazendo dublagens a todos os personagens. Uma pena que todos as vozes e os textos estão em inglês, constituindo um barreira àqueles que não entendem o idioma.

Diálogos inacreditáveis, eventos surreais

Eu já disse em algumas oportunidades que meu aspecto preferido nos videogames é o roteiro e um jogo com uma faceta cinematográfica bem feita consegue me conduzir suavemente até o seu final. ELEX 2 consegue uma façanha que acredito ser para poucos que é ter os piores diálogos entre os personagens que eu já vi em qualquer mídia. Nosso protagonista Jax possui o carisma de uma enxada e as coisas que saem da boca dele são inacreditáveis, sobretudo quando conversa com Caja e seu filho.

Jax e Caja conversam em ELEX 2
ELEX 2 oferece opções de diálogos para proposta de RPG.

Mistérios são construídos e revelados sem qualquer cuidado em manter a nossa atenção e engajamento na descoberta, além de que os personagens são convencidos a trabalhar junto com Jax algumas linhas após terem negado com veemência qualquer participação na construção de uma resistência aos Skyans. Os demais personagens apresentados também não possuem qualquer cuidado em sua construção, atrapalhando qualquer aproximação do jogador com suas motivações e decisões.

Show do Billy Idol em ELEX 2
Não há outra palavra para descrever esse momento além de “surreal”

Mas nada mais aleatório do que descobrir que existe uma arena de shows no mapa e participar de um show do Billy Idol (?!?). Por que? Não se sabe, mas o show está lá. Essas incongruências mostram que ELEX 2 parece sofrer do mesmo problema que acometeu Cyberpunk 2077: a falta de gerenciamento do escopo do projeto. Tenho a impressão de que se os recursos disponíveis ao time de desenvolvimento (tempo, dinheiro, hardware e etc) fossem melhor empregados, teríamos um jogo melhor acabado, em que pese a duvidosa escolha do tom atribuído à aventura.

Conclusão

Jax enfrenta monstro em ELEX 2
O combate não é grande coisa, mas o design dos inimigos é bem legal (créditos: divulgação)

ELEX 2 leva-se a sério demais para um jogo com sérios problemas de desempenho e momentos escassos de boa jogabilidade. A impressão que passa é que ELEX 2 é como aquele carro velho que não se sabe como nem porquê, mas anda. Eu recomendaria para aqueles que nunca jogaram qualquer RPG em mundo aberto, sobretudo crianças, mas a falta de localização em português não ajuda. Entretanto, se você quiser gastar seu suado dinheirinho nesta pérola do entretenimento eletrônico, faça por sua própria conta e risco, lembrando de colocar as expectativas no lugar certo. Quem sabe você não se surpreende e passa até a ver um certo charme indie no jogo?

ELEX 2 foi desenvolvido pela Piranha Bytes e publicado em março/2020 pela THQ Nordic para PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, /S e PC.

A análise do jogo foi realizada com base em uma cópia digital fornecida pela assessoria de imprensa do game.

Tiago Matias Escobar
Metaleiro não uniformizado. Cerveja, pizza, games e viagens ocasionais.