Análise Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning (PS4)

Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning é o remaster de um RPG de ação muito bom da geração anterior, mas que faz pouco para modernizar o game para novas audiências

Um jogador de beisebol, um escritor de literatura fantástica e um desenhista de quadrinhos entram em um bar… E apesar de soar muito como introdução a uma piada é assim que a história do desenvolvimento do Kingdoms of Amalur original começa e antes que ela termine entrarão nesse barco furado um político e a justiça norte-americana.

O remaster de Kingdoms of Amalur ficou a cargo da alemã Kaiko Games com publicação pela THQ Nordic, baseado na obra originalmente desenvolvida pela Big Huge Games, um subsidiária da 38 Studios, lançado em 07 de setembro de 2020 para PlayStation 4, Xbox One e plataformas Windows.

Mas antes de entrar na qualidade do remaster em si é curioso saber um pouco mais sobre a história da 38 Studios e de seu criador Curt Schilling para quem não acompanhou o lançamento de KoA em 2012.

Um pouquinho dos bastidores

Em 2007 Schilling estava no topo do mundo: tinha conquistado seu segundo Campeonato Mundial de Baseball com o Red Sox e era considerado um dos melhores arremessadores no esporte. Contudo uma contusão no ombro fez com que ele não participasse do campeonato de 2008 e devido a uma recuperação ineficaz anunciou sua aposentadoria no início de 2009.

Apaixonado por games Schilling havia criado o estúdio Green Monster Games em 2006, que passou a se chamar 38 Studios dois anos depois, e agora já aposentado e podendo se dedicar mais ao empreendimento começou por em prática seu objetivo principal: criar o maior MMORPG já imaginado.

Para isso contou com a ajuda de duas pessoas: o escritor de fantasia R.A. Salvatore, famoso pela campanha Forgotten Realms de Dungeons & Dragons e do desenhista Todd McFarlane, criador de Spawn e desenhista de uma das melhores fases do Homem-Aranha nos quadrinhos.

E se esses dois titãs já não eram suficientes para atingir a ambição visionada por Curt, em 2008 ao comprar da THQ o estúdio Big Huge Games um novo integrante valioso seria adicionado ao time: Ken Rolston, designer principal de Elders Scrolls III: Morrowind e IV: Oblivion.

Com a chegada de Rolston, que estava trabalhando em um RPG single-player para a Big Huge Games, a ideia do MMO da 38, conhecido pelo codinome Project Copernicus, foi adiada temporariamente e planejada para ser então o segundo título do estúdio.

Dessa forma aproveitando o que havia sido desenvolvido pela BHG e parte da história criada por Salvatore, o que viria a se tornar Kingdoms of Amalur: The Reckoning funcionaria como uma introdução ao universo épico fantástico do futuro MMO.

Tudo parecia perfeito, mas games que pretendem se tornar o alfa e o ômega da indústria custam um caminhão de dinheiro e mesmo com a fortuna e prestígio de Schilling o estúdio precisava de mais verba urgentemente.

Com a promessa de gerar 450 novos empregos e transferir a 38 Studios de Massachusets para Rhode Island, Schilling conseguiu um acordo para que a Câmara do Comércio do Estado aprovasse um empréstimo de 45 milhões de dólares para finalizar Kingdoms of Amalur e continuar o desenvolvimento de Copernicus.

E é nesse cenário que em fevereiro de 2012 é lançado Kingdoms of Amalur: Reckoning e apesar de receber notas variando de 80 a 90 dos veículos especializados ele acabou não atingindo as expectativas de venda e um dos grandes motivos disso foi o lançamento de outro RPG três meses antes que fez jogadores passarem centenas de horas se esquivando de flechadas no joelho: The Elder Scrolls V: Skyrim.

Skyrim parecia mais maduro, sombrio e com gráficos mais realistas quando comparados ao cartunesco Kingdoms of Amalur e embora o combate hack n’ slash de Kingdoms seja muito bom e mais fluído quando comparado ao de Skyrim, o que fez com que a massa de jogadores preferisse o novo jogo da Bethesda foi o senso de liberdade que a exploração em escala épica que Elders Scrolls V oferecia.

E assim três meses após o lançamento de Kingdoms of Amalur a 38 Studios entrou com pedido de falência após não conseguir honrar as parcelas do empréstimo com Rhode Island e mesmo após Schilling gastar mais de 50 milhões da sua fortuna pessoal no projeto.

Após várias batalhas legais travadas nos tribunais americanos em 2017 as partes envolvidas entraram em um acordo e o caso foi encerrado.

Em 2018 a THQ Nordic comprou as propriedades intelectuais de Kingdoms, bem como os assets desenvolvidos para o projeto Copernicus, e finalmente em 2020 pudemos retornar as aventuras na região de Faeland com Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning.

Mas será que após 8 anos o game ainda se sustenta como um bom RPG? E será que valeu a pena esperar por esse remaster?

Melhorias econômicas

As respostas para essas perguntas dependem muito do ótica e da expectativa de cada um.

Re-Reckoning é extremamente fiel a obra original, o que significa que fãs antigos podem ficar tranquilos que nada foi “profanado” aqui, por outro lado isso também quer dizer que ele não traz nenhuma novidade significativa para esses mesmos fãs.

Os gráficos e principalmente a iluminação foram aprimorados, mas é uma melhoria tão pouco expressiva que ao comparar as duas obras lado a lado em alguns momentos é fácil confundir qual é qual. Pode-se argumentar que Amalur já era muito bonito para a época, mas mesmo assim eu esperava gráficos mais refinados em 2020.

Como novidade Re-Reckoning traz uma nova dificuldade (very hard) para aqueles que achavam que ele ficava fácil muito rápido e todas as missões dos DLCs já incorporadas no game, o que aumenta a sua duração de cerca de 70 para no mínimo 100 horas.

A trava de nível ao entrar em uma nova área também foi abandonada e agora os inimigos escalam com o nível do personagem no momento, diferente do original em que todos permaneciam com o mesmo nível da primeira visita do jogador.

A high fantasy de Kingdoms of Amalur continua incrível e a história de como o seu personagem escapa das garras da morte e do destino para se tornar peça fundamental no xadrez de guerra entre os imortais das Cortes do Inverno contra as raças mortais e os Fae da Corte do Verão é muito bem desenvolvida.

Infelizmente se você não tiver uma boa noção de Inglês vai perder muito da história ao comprar esse remaster já que ele não tem legendas em Português do Brasil.

Devido ao tamanho gigante de Amalur e da quantidade excessiva de missões em um determinado ponto a narrativa começa a ficar cansativa e pular diálogos acaba se tornando frequente, mesmo sendo uma história muito interessante.

E esse não é um problema exclusivo do remaster como também do original, ao lotar o jogador com conteúdo, centenas de missões e atividades secundárias muito similares em estrutura ele se torna repetitivo rapidamente.

E apesar dessa forma de construção ser o pilar de MMOs, Kingdoms of Amalur não era o Project Copernicus, mas pelo visto tinha muita vontade de ser.

Contudo o maior problema de KoA, e chega ser criminoso que isso aconteça dessa forma em um jogo em 2020, é a quantidade de loadings.

Precisa entrar em 4 casas ou lojas diferentes em um vilarejo? Vão ser 8 loadings no total, um para entrar e um para sair de cada prédio. E apesar de nãos serem tão demorados como quando se muda de região no mapa ou quando se faz uma viagem rápida, ainda assim serão 8 telas de carregamento em uma mesma área.

Isso é um absurdo pensando no tamanho das áreas em que isso acontece e é uma das coisas que deveriam ter sido melhores otimizadas nesse remaster.

Resistindo ao teste do tempo

O combate hack ‘n slash de Kingdoms of Amalur ainda se sustenta e fazer combos alternando entre as diferentes armas e magias é bem satisfatório e eu particularmente gosto da mecânica de sempre conseguir loots de armas e armaduras melhores bem característico de MMOs, mas entendo quem se incomoda com isso.

Mas o grande destaque do game fica para os sistemas de RPG e a forma como é feita a evolução dos personagens.
É possível escolher entre quatro raças (o que não faz diferença no combate) e três classes diferentes (essas sim fazem grande diferença) com 22 habilidades em cada uma. Mas o grande acerto em KoA não é nem a variedade presentes, mas como ele dá a liberdade de misturar essas opções.

O jogador pode começar como mago, mas gastar alguns pontos nas habilidades guerreiras ou ainda colocar pontos em habilidades que favorecem a furtividade de um ladino para uma abordagem mais discreta. Além disso essas combinações liberam características chamadas Destinos que concedem bônus passivos ao jogador e que podem ser alternados a qualquer momento.

Também é possível investir nas habilidades constitutivas do seu personagem e melhorar persuasão, diplomacia, sabedoria, qualidade de forja, dentre outros e através destas facilitar acesso a determinados itens, construir armas e armaduras, produzir poções ou escolher opções de diálogo específicas.

E se por acaso não gostar de uma combinação ou quiser experimentar outra basta pagar uma quantia em dinheiro para um NPC e redistribuir os pontos quantas vezes achar necessário, uma liberdade que poucos RPGs concedem.

Normalmente resetar atributos em um personagem é atrelado ao uso de itens raros ou difíceis de conseguir, mas não em Amalur, aqui basta ter dinheiro suficiente no bolso e isso é maravilhoso.

Vale a pena?

Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning é um RPG bem completo, competente e tem uma excelente história de fantasia mágica, mas é cheio de problemas de desempenho, principalmente em relação a loadings e alguns slowdowns, que não deveriam existir ou serem minimizados neste remaster e infelizmente esse não é o caso.

Caso você tenha acesso ao jogo original o remaster não acrescentará muito à sua experiência, mas se a sua única forma de conhecer o game for através dessa atualização eu recomendo esperar uma promoção e aí sim adquirir Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning.

É um título que todo fã de RPG ocidental deveria experimentar, mas não pelo preço que estão cobrando por ele na data deste review.

A análise de Kingdoms of Amalur: Re-Reckoning foi escrita com base em uma cópia de PlayStation 4 gentilmente cedida pela assessoria de imprensa do jogo.


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Papai Platina
Trophy hunter e pai de 3 filhos maravilhosos.