Análise Life Is Strange: True Colors (PS4 e PS5)

Life Is Strange: True Colors dá continuidade à série de jogos narrativos intimistas da Square Enix e apresenta uma nova personagem, Alex Chen.

Imagem título com Alex Chen

A série Life Is Strange começou com passos tímidos, mas sempre pareceu ter em mente a narrativa contemporânea das séries de TV como base para desenhar uma trama com mistérios e personagens memoráveis, sendo Chloe Price, talvez a maior delas. O quarto jogo da série, Life Is Strange: True Colors trilha o mesmo caminho e busca manter os elementos que caracterizam os jogos anteriores, ao mesmo tempo que adiciona novas abordagens de gameplay.

Tudo Azul em Haven Springs

Personagens Ryan, Alex e Gabe
Ryan, Alex e Gabe desvendam o mistério do dia (créditos: Square Enix)

Em Life Is Strange: True Colors, estamos na pele de Alex Chen, uma jovem adulta que procura um recomeço e vai ao encontro de seu irmão Gabe na pequena cidade de Haven Springs, no interior do Colorado, EUA. Embora encontrar com o irmão possa parecer algo corriqueiro, tal tarefa não é fácil para Alex, pois após passar vários anos em abrigos para menores, não possui facilidade em conviver com pessoas. E como não há nada na vida que não possa piorar, ao mesmo tempo em que Alex não consegue se abrir para novas pessoas, ela possui, nas palavras dela, uma maldição: conseguir ver as emoções das pessoas e, se elas forem muito intensas, senti-las como se fossem suas.

Para contar esse trecho da vida de Alex Chen, Life Is Strange: True Colors apresenta o trabalho primoroso da desenvolvedora Deck Nine na ambientação do jogo. Os gráficos são nada menos que belíssimos e mesmo o estilo cartunesco que caracteriza a série não compromete a imersão visual no pequeno universo de Haven Springs. O acabamento visual é bastante completo e os cenários são cheio de detalhes que contam um pouco da história de cada personagem, como a loja de discos da Steph, o bar do Jed e a floricultura da Eleanor.

Steph Gingrich
Como não amar Steph? (créditos: Square Enix)

A captura de movimentos e a sincronização labial dos personagens também são de altíssimo nível e auxiliam na demonstração das emoções de cada personagem que abrem sorrisos genuínos ou desfalecem em tristeza após receberem uma notícia ruim.  Os únicos momentos em que senti que a movimentação da personagem poderia ser melhor ocorrem quando Alex toca seu violão, pois em algumas músicas ela realmente faz acordes reais com a mão, mas em outras isso é simplesmente ignorado. Todavia isso não impacta em nada a experiência do jogo.

Se a apresentação gráfica do jogo está em alto nível, o design de som e a trilha sonora não ficam para trás.

Como sempre, o design de som (barulhos, ruídos e sons em geral que não são música) é aquele elemento que somente aparece quando é excepcional ou muito ruim a ponto de comprometer a experiência do jogo, sendo que em Life Is Strange: True Colors ele se coloca a serviço do jogo na maior parte do tempo e enche os ouvidos quando estamos próximos da natureza, seja árvores ou do lago da cidade. Apenas em um momento percebi que uma linha de diálogo tinha um volume um pouco mais baixo do que os demais, mas as legendas compensaram o pequeno problema. No entanto, fica aqui a reclamação da ausência de uma dublagem em português.

Alex carrega seu violão
A música está em todos os momentos de Life Is Strange: True Colors

Por outro lado, a trilha sonora é quase um personagem próprio do jogo, como tradição da série e merece destaque à parte, pois dá a tônica emocional para o jogo. Embora não seja a minha praia, não dá pra negar que a trilha sonora recheada de indie rock e rock alternativo casam muito bem com a personalidade desavergonhadamente emo de Alex, inclusive com excelentes surpresas ao inserir músicas licenciadas bastante famosas.

Em time que está ganhando…

O gameplay da série permanece quase inalterado. Controlando Alex podemos andar e correr (quando permitido) e interagir com objetos marcados no cenário. A interação pode ocorrer com forma passiva, com Alex descrevendo o objeto ou alguma situação em sua mente; ou de forma ativa, como abrindo uma porta ou pegando algo, ou ainda, em casos específicos, usando os poderes para verificar as emoções que estão associadas àquele item.

Em dado momento, Alex pode, por exemplo, perceber qual foi a situação que levou seu irmão Gabe a descontar sua frustração na parede do apartamento ao examinar uma rachadura provocada por um chute.

Alex Chen vê Eleanor atrás do balcão
A interação com personagens e objetos é importante na solução de quebra-cabeças.

A análise da “aura” emocional dos personagens ocorre com o simples aperto de dois botões (R2 e X, no caso do PlayStation),  leva à descoberta do que aquela pessoa está pensando no momento e desbloqueia novos diálogos a serem utilizados por Alex para conseguir avançar na narrativa.

Outro aspecto interessante é a exploração do cenário, que também traz opções escondidas de interação com personagens e objetos que não necessariamente estão escondidos no cenário, mas desdobram-se em novas possibilidades de resolução de problemas. Nesse particular, Road 96 faz um trabalho mais interessante em buscar a variação de gameplay com pequenos puzzles e joguinhos espalhados pela campanha. Life Is Strange: True Colors também tenta variar e acrescentar novas formas de interação, como jogos de arcade e um tipo de RPG (do qual não vou falar muito para não estragar a experiência), mas não consegue fugir muito do que já foi estabelecido nos jogos anteriores.

Cabe ainda acrescentar que existe a possibilidade de customizar a aparência de Alex por meio da escolha de novas roupas, o que é bem-vindo e, ainda que essa personalização seja bastante limitada, é melhor que nenhuma.

Cada escolha, uma renúncia

Apesar da apresentação técnica primorosa, Life Is Strange: True Colors derrapa no desenvolvimento de sua narrativa e na escolha de temas a serem abordados.

Embora o jogo conte com um início interessante, mostrando o poder de “super-empatia” da Alex despertar em um momento de raiva (com direito a uma surra catártica em um personagem chatíssimo) a narrativa logo encontra um lugar seguro e se acomoda até o perto do final do jogo.

Veja, em Life Is Strange: True Colors, acompanhamos a de Alex Chen, uma jovem relativamente problemática que se muda para uma cidadezinha do interior dos EUA, buscando uma vida nova. É de se imaginar (pelo menos eu imaginei) que o jogo trataria de conflitos vividos por Alex em seu processo de adaptação em Haven Springs, para fazer emergir o drama característico da série. No entanto, tudo que ela menos encontra na jornada são percalços, pois logo é recebida pelo irmão e seus amigos que disputam de modo ferrenho para demonstrar qual é o personagem mais simpático, querido e carismático do jogo. Não faz sentido.

Fique tranquilo: essa escolha não terá consequências.

Tudo transcorre de forma linear e sem muito perigo no jogo. Até mesmo a reviravolta próxima do final (que inaugura o trecho mais arrastado de todos) não traz qualquer consequência séria para os personagens mais próximos de nós.

É uma pena, pois mesmo Alex sendo capaz de enxergar os pensamentos e sentimentos dos outros, isso não vai muito além de possibilitar uma nova linha de diálogo com algumas palavras de conforto ditas por Alex. Em poucas vezes eu me senti pressionado a fazer a escolha certa e com medo de que algo ruim pudesse acontecer com algum personagem. Apenas uma personagem (Charlotte) tinha conflitos emocionais relevantes e autênticos, mas ainda assim, isso não foi desenvolvido.

Rede Social em Life Is Strange: True Colors
As mensagens no celular e as redes sociais permitem conhecer melhor os personagens.

Para ser justo, existe uma camada de significado sobre a empatia e como, nos relacionamentos, nós colhemos aquilo que plantamos, mas para chegar nesse lugar o jogo desperdiçou muitas outras oportunidades.

Por outro lado, Life Is Strange: True Colors se prova como um verdadeiro abrigo para aqueles que não querem espelhamento de conflitos e agressões da vida real no seu momento entretenimento. Trazendo uma gama de personagens bastante diversificada, não os expõe a preconceitos ou vicissitudes do mundo atual, marcado pela intolerância e violência contra minorias. Pelo contrário, a pequena cidade de Haven Springs parece o paraíso libertário para todas as pessoas que querem viver a vida em paz, independentemente de cor, orientação sexual, religião, gênero e outros marcadores sociais.

Alex chega em Haven Springs
Se John Rambo chegasse em Haven Springs, o filme não existiria.

Infelizmente, esse paradoxo marca o jogo de forma negativa, pois Life Is Strange: True Colors não decide o que quer ser e até mesmo a esperada riqueza de escolhas e caminhos a serem trilhados pela protagonista é limitada por trechos de gameplay que, sob o pretexto de inovar, acaba ocupando tempo demais do jogo e resultando em uma trama linear e, por que não, clichê.

Cores Verdadeiras

Life Is Strange: True Colors capricha no visual mas deixa a desejar ao desperdiçar uma premissa incrível em favor de uma trama simples. Mas não se engane, o jogo ainda é muito agradável e tem bons personagens, além de oferecer a possibilidade de ser jogado várias vezes para encontrar novas interações nos cenários ou fazer algum final diferente e acrescenta alguns trechos com gameplay inédito na série. No entanto, o coração da série, aquilo que fez de Life Is Strange um produto artístico maduro e sensível, ficou em algum lugar pelo caminho.

Life Is Strange: True Colors foi desenvolvido pela Deck Nine e publicado pela Square Enix e está disponível para PC, 4, PlayStation 5, Xbox One e /S.

A análise foi feita com base em uma cópia digital de 5 fornecida gentilmente pela assessoria de imprensa do jogo.

Tiago Matias Escobar
Metaleiro não uniformizado. Cerveja, pizza, games e viagens ocasionais.