Conversa de Sofá

Por Arthur Marino em 28/04/2014

id Software: ainda há esperança?

A id Software prepara sua nova investida no mercado dos games. Conheça um pouco da história da gigante que revolucionou o first-person shooter e deu vida a duas das maiores franquias do gênero.

Com um currículo invejável, a texana id Software foi a responsável por popularizar o gênero FPS (first-person shooter) na década de 90. Sob o comando de John Carmack, John Romero e Tom Hall a desenvolvedora teve seu primeiro sucesso comercial com Wolfenstein 3D (1992), no qual o jogador assume o comando do agente “B.J.” Blazkowicz para escapar do Castelo Wolfenstein e exterminar a ameaça nazista. Como se ainda não houvesse pressão, ela impressionou e deu vida a duas das mais influentes franquias da história dos games: Doom e Quake.

Ah, os anos 90!

Lançado um ano depois de Wolfenstein 3D, em Doom (1993) o jogador vivia a jornada de um soldado enviado a Marte para impedir que demônios invadissem a Terra através de um portal aberto por cientistas e seus experimentos com teletransporte. O game que se tornou um sucesso, hoje é figurinha carimbada em listas como a dos 10 jogos mais influentes pelo The New York Times ou os 100 melhores games de todos os tempos pela Time Maganize.

Logo mais em 1996, Quake chegou com um hype poderoso – e fez jus a ele. Seguindo uma história semelhante ao seu antecessor, o jogo apresentava uma atmosfera mais obscura e uma série de inovações, permitindo a renderização completa em 3D e a incrível habilidade de pular, até então inexistente nos jogos de FPS da época.

Como característica marcante, a id Software optava por deixar a história de seus jogos em segundo plano – com um herói anônimo, o foco era transmitido exclusivamente para a (extraordinária) jogabilidade que era apresentada em conjunto a uma variedade de armas para combater diversos e incansáveis inimigos; tudo isso com um level design impecável, apresentando mapas gigantes inclusive para os dias atuais, capazes de criar um fator de replay absurdo para ambos os títulos.

Doom (E2M1): "Deimos Anomaly"

Doom (E2M1): “Deimos Anomaly”

Ainda falando de inovação, é louvável citar a postura da empresa para divulgar seus produtos: a id se tornou uma das primeiras a se apoiar na distribuição de cópias shareware de seus jogos – o que permitia aos jogadores conhecerem o produto antes de comprá-lo, bem como facilmente apresentá-lo a seus amigos. O triunfo final se deu pela inclusão do modo multiplayer, se aproveitando da excessiva quantidade de gore presente nos títulos e a possibilidade de criação de mapas customizados, culminando na popularização das arenas deathmatch e as comunidades em rede.

A geração multiplayer e gráfica

Em 1999, Doom e Quake já haviam ganhado novas versões, Doom II: Masters of Hell (1994) e Quake II (1997) assim como algumas expansões. Enquanto o primeiro manteve a linha de seu antecessor, Quake alterou sua atmosfera para algo mais “sci-fi” e fortaleceu seu modo multiplayer, se tornando o jogo online mais popular de 1998. Com a oportunidade em mãos a id Software apresentou mais uma de suas obras primas: o Quake III Arena.

O terceiro título da série focava-se exclusivamente no combate multiplayer, tendo por muito tempo travado um sério duelo com seu rival, o Unreal Tournament da Epic Games pelo domínio da rede. Sua jogabilidade relativamente simples permitia ao jogador desenvolver suas habilidades de acordo com a familiaridade obtida com o jogo (quanto mais tempo em jogo, melhor se joga), e passou a ser obrigatório em torneios profissionais de e-sports e lan houses por todo o mundo – figurando em alguns torneios até os dias atuais. O jogo ainda ganhou uma expansão em 2000, com Quake III: Team Arena.

Quake III Arena

Quake III Arena: Deathmatch

De 1999 até 2004 a id Software entrou em um período sem grandes produções, tendo seu maior destaque na supervisão da produção de Return to Castle Wolfenstein (2001) desenvolvido pela Gray Matter Interactive, uma sequência a Wolfenstein 3D de 1993. Um clássico shooter da Segunda Guerra Mundial mixado com elementos de magia negra e tecnologia futurística na construção soldados perfeitos – altamente recomendado.

Foi então que em 2004, o monstro mostrou suas caras, e no melhor estilo John Romero: “Doom 3 is about to make your hardware his b*tch“. Doom 3 publicado pela Activision foi responsável por reiniciar a série Doom, agora com uma atmosfera absurdamente tenebrosa, que deixaria Alien (1979) chorando por sua mãe – nota do autor: “não tenho palavras para descrever, apenas registro que jogar o game com as luzes apagadas e um sistema de som de alta qualidade é capaz de deixar qualquer um louco!”. A insana tensão criada pela ambientação do jogo só foi possível graças a utilização do motor id Tech 4, resultando em gráficos absolutamente surreais para a época, definindo parâmetros para as placas de vídeo até o lançamento de Crysis em 2007. Não podia se esperar nada menos do que isso, o jogo foi um sucesso de crítica (apesar de se distanciar do original Doom) e acabou se tornando o mais lucrativo da história da empresa.

Doom 3: Hell

Doom 3: Hell

A longa espera por algo mais…

Na primeira metade da década de 00 a participação da desenvolvedora no mercado se resumiu ao lançamento de Doom 3 e duas participações em projetos alternativos (RTCW e Quake 4 em 2005), muito pouco para quem costumava ditar as regras do jogo. A competição que já começava a se estabelecer no início da década ficava cada ano mais forte – alguns exemplos como a Valve com Half-Life e Counter Strike, a Crytek com Far Cry (e posteriormente Crysis), a EA Games com Battlefield e a Actvision com Call of Duty ilustram o tamanho do adversário que viria a ser enfrentado.

Com o gênero evoluindo e tomando direções diferentes do que antes era – a antiga barra de vida foi substituída por um life regenerativo; as habilidades não mais se desenvolvem conforme o jogador joga, mas sim conforme sua classe e a experiência ganha num mix de RPG, ficava claro que a desenvolvedora precisava ser agressiva para retomar a liderança do segmento. Em 2008 foi anunciada a quarta instalação para a maior de suas franquias, Doom 4 – talvez o maior problema da id Software e dos fanáticos pelo gênero. Cinco anos após seu anúncio nada ainda havia sido mostrado e os rumores eram de que Doom 4 havia entrado em estado de “development hell. Assim como o jogo, a imagem da desenvolvedora foi caindo no esquecimento.

RAGE - Doomguy!

RAGE – Doomguy!

Em 2009 a id Software foi adquirida pela ZeniMax Media, contrariando o antigo co-fundador John Romero – que já não fazia parte da equipe desde 1996. Dessa forma, dois títulos de maior relevância vieram ao mundo sob a nova chefia: Wolfenstein (2009) e RAGE (2011). O primeiro não obteve muito sucesso, sendo facilmente esquecido por grande parte dos jogadores. Já RAGE, que se passava num futuro pós-apocalíptico, iniciou na nova era dos shooters open-world com elementos de RPG e reuniu alguns pontos positivos, ganhando certo destaque. De um modo geral se mostrou um bom jogo, exibindo gráficos bonitos e um ótimo sistema de combate, mas talvez a falta de originalidade e os problemas enfrentados na versão para PC tenham comprometido seu sucesso.

O futuro

Acostumada com o pioneirismo, a id Software agora passa por períodos difíceis. Sempre revolucionando a forma com que os jogos exibidos ou até construídos – é possível perceber a magnitude da importância que teve a id Tech como motor para o desenvolvimento dos games através desses gráficos [1] [2] – a empresa agora precisa se reinventar para encarar a nova realidade dos shooters sem perder sua essência – ainda mais depois da saída de John Carmack da desenvolvedora. Os tempos são outros, a época dos shooters simples altamente dependentes da habilidade do jogador e com (grandes) toques de humor foi substituída pela simulação e fidelidade gráfica em sua grande maioria. Fica difícil de imaginar como seria o lançamento de um jogo como Doom nos tempos atuais – ou será que não?

Com o lançamento de Wolfenstein: The New Order (2014) agora desenvolvido pela Machina Games com data marcada para 20/05/2014, um resquício de esperança surgiu: os que comprarem o game na pré-venda receberão uma chave para a versão beta de Doom! Após oito anos de espera a franquia vai voltar a figurar no horizonte – apesar de nenhuma outra informação sobre o beta ter sido revelada, foi confirmado que o lançamento será exclusivo para Xbox One, PC e PS4.

Sem dúvida é uma notícia promissora, entretanto, há alguns anos pode-se presenciar o fracasso da 3D Realms com Duke Nukem Forever, que apesar de divertido não pode nem de longe satisfazer as expectativas. Agora é a hora da id Software fazer o que se espera dela: inovar e dar vida a uma nova lenda. O que se espera do próximo Doom já foi dito, agora é aguardar.

Para quem ainda não conhece (ou ainda não possui as cópias), todos os jogos da id Software se encontram no Steam e são escolhas obrigatórias para os adoradores do gênero durante as promoções.

“Don’t leave yet — There’s a
demon around that corner!” (*)

Colatinense, 22 anos, aspirante a Engenheiro de Produção. Retro-gamer, acredita que a década de 90 foi a era de ouro dos jogos, na qual a diversão se sobressaia a simulação. Fanático pelo gênero FPS, desde Wolfenstein até Crysis.
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