Análise 9 Monkeys of Shaolin (PS4)

9 Monkeys of Shaolin presta homenagem a filmes de Kung Fu em um beat ‘em up com muitas possibilidades de combate, mas que peca na dificuldade a partir da metade do jogo.

Filmes de artes marciais viveram seu momento de glória nos Estados Unidos nas décadas de 70 e 80 e como tudo que era tendência da terra do Tio Sam acabava chegando anos depois no Brasil, quem teve sua infância nos anos 90 (mais conhecida como a época de ouro da Sessão da Tarde e do Cinema em Casa), com certeza foi apresentado a nomes como Bruce Lee, Jackie Chan e Jet Li.

As artes marciais dominavam os intervalos das escolas quando um dos filmes estrelados por eles passavam na TV no dia anterior e era frequente os pais serem chamados à Diretoria para discutir o comportamento de um pequeno Van Damme que sonhava em ser um Grande Dragão Branco.

Nesse mesmo período surge um outro pilar da infância no Brasil na era pré internet e que já fazia sucesso no mundo inteiro anos antes: os fliperamas. Quase todas as cidades, mesmo as mais interioranas como a que cresci, tinham um.
E todo fliperama de respeito tinha sempre uma máquina de Street Fighter II (essa era a lei) e diversas outras máquinas, porém a maioria era dominada por um estilo de jogo que nós conhecíamos como briga de rua: os beat ‘em ups.

O game tem cenários muito bonitos

Cadillacs and Dinosaurs, o jogo das Tartarugas Ninja, Double Dragon, Golden Axe, Altered Beast, Streets of Rage, Simpsons… Eu poderia citar de cabeça pelo menos mais alguns dessa época e com certeza, você já teria ouvido falar ou mesmo jogado ao menos um deles.

E apesar de hoje os beat ‘em ups não serem tão dominantes como há 30 anos, ainda somos surpreendidos com jogos muito bons do gênero vez ou outra, como Scott Pilgrim vs. The World, o brasileiro 99 Vidas e as recentes reformulações em 2020 de Streets of Rage e Battletoads.

A combinação da paixão dos desenvolvedores por beat ‘em ups e filmes de Kung Fu resultou em 9 Monkeys of Shaolin, jogo desenvolvido pela Sobaka Studios e publicado pela BUKA Entertainment, disponível para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch e PC, lançado em 16 de outubro de 2020.

Uma mistura inusitada que se encaixou como uma luva no gênero tornando ele diferente o suficiente e ainda assim muito familiar para fãs do estilo.

O jogador pode usar as máscaras dos Chefões derrotados (efeito só estético)

Um conto Chinês

Em 9 Monkeys of Shaolin o seu personagem se chama Wei Cheng que após ter a família morta e seu vilarejo destruído por piratas japoneses é deixado agonizando para morrer. Felizmente monges o salvam e o treinam para que ele possa ajudá-los a retomar as províncias da China invadidas por esses bárbaros e restabelecer a ordem, além de ajudar Wei em sua vingança no processo.

A história como na maioria dos jogos do gênero serve apenas como um pano de fundo para que o combate aconteça e mesmo que eu particularmente não veja isso como um problema, talvez você leitor tenha uma opinião diferente.

Existem algumas referências a lendas orientais, como a máscara demoníaca Shikami, que são bem legais, mas não se engane isso não quer dizer que a narrativa será aprofundada e esse nem é o objetivo.

Um ponto fora da curva para a maioria dos beat ‘em ups é que aqui todos os diálogos são dublados em inglês (ou em russo), a narração também é dublada e contada através de cutscenes em forma de pinturas estáticas que são muito bonitas.

As “pinturas” das cutscenes são muito bem feitas

O destaque da dublagem fica para o trabalho feito por Daisuke Tsuji, que empresta sua voz para Wei Cheng, e que talvez você conheça por conta de um jogo menor que saiu esse ano em que ele também faz o personagem principal: Ghost of Tsushima.

Infelizmente o jogo conta com legendas em várias línguas como russo, chinês, inglês, japonês, espanhol, italiano, francês e alemão, mas não em português do Brasil, então se você se importar com a história e não dominar algum desses idiomas isso será um problema.

Everybody Was Kung Fu Fighting

Normalmente beat ‘em ups usam apenas quatro comandos: soco, chute, agarrão e um golpe especial e nesse ponto 9 Monkeys of Shaolin se diferencia da maioria, trazendo um combate significativamente mais complexo.

O jogador possui inicialmente uma única postura de combate, composta por dois golpes com um bastão, um chute, uma esquiva e uma defesa que quando usada no momento certo deflete projéteis e ataques diretos. Cada um dos três ataques diretos possui uma variante carregada mais forte e essas consomem uma barra de Qi quando usadas.

Os diferentes chás são os itens consumíveis para recuperar vida, causar mais dano, etc.

Todos os golpes podem ser intercalados ou combinados resultando em combos devastadores e esteticamente muito bonitos, recriando toda a magia dos filmes de Kung Fu que mencionei acima, em que o personagem parece voar enquanto acerta todos os adversários em uma arena sem tocar o chão.

Com o progresso na história o jogador liberará mais duas posturas que acrescentam uma profundidade maior ao combate, mas que em contrapartida tornam ele muito mais fácil.

As posturas de 9 Monkeys of Shaolin são as seguintes: Postura Básica (padrão desbloqueada desde o início), Postura Acrobática (liberada no início do capítulo 2) e Postura Mágica (concedida no capítulo 3). Cada uma dessas posturas conta com três categorias associadas aos golpes básicos e cada uma dessas traz oito habilidades associadas a elas, que vão desde menos dano recebido ao usar uma postura até mais dano quando algum inimigo estiver atordoado, dentre outras.

Ao término de cada fase uma quantidade de pontos pré-definidos é garantida ao jogador e com esses pontos é possível melhorar as habilidades no monastério, tornando Wei imbatível no longo prazo.

Cada arma e item tem uma característica única

Outra recompensa por terminar as fases é a obtenção de armas e itens que trazem bônus, como uma sapatilha que transforma a esquiva em um dash que atravessa os inimigos, ou um colar que aumenta a regeneração de Qi, e vários outros.

Essas recompensas e a quantidade de pontos são fixas e o jogador sabe exatamente o que vai ganhar ao concluir um determinado cenário antes de iniciar ele.

Tijolo não revida

O game é relativamente curto e a duração média para a maioria dos jogadores deve variar entre 5 a 6 horas, mesmo na maior dificuldade.

São 5 capítulos e cada um possui de 4 a 6 fases e, como mencionado anteriormente ao liberar as duas posturas especiais em conjunto com os itens e habilidades adquiridas transformam o game a partir do terceiro capítulo em um passeio no parque e é muito difícil morrer mesmo para os inimigos mais fortes ou Chefões.

Os Selos da Postura Mágica facilitam muito o combate, até demais

O único desafio em 9 Monkeys of Shaolin a partir do meio do jogo é aprender a combinação de botões de cada postura e quando usar elas. Pode parecer complexo no começo, mas em pouco tempo você estará acostumado a alternar entre as posturas quando necessário sem nem perceber.

Pense no seguinte cenário: ao entrar em uma área três inimigos me cercam e dois ficam mais afastados, uso o Selo Mágico da Atração e trago todos para o meu raio de ação, uso o Selo da Harmonia que vai enfraquecer e deixar todos que estiverem dentro da sua área mais lentos (detalhe: nos últimos níveis da habilidade esse Selo concede recuperação de vida), aplico então o golpe Tufão da Postura Acrobática que gira o bastão em área atingindo cada inimigo três vezes, emprego então o Selo da Levitação para deixar todos suspensos no ar e finalizo com golpes normais da Postura Básica que vão encher novamente as barras de Qi que gastei ao usar os Selos.

Tudo isso foi feito em segundos e todos foram derrotados sem terem a oportunidade de me ameaçar e sem que eu precisasse usar os itens de cura encontrados em caixas espalhadas pelos cenários.

O co-op torna tudo ainda mais fácil

E em co-op é ainda mais fácil, já que aparentemente o nível dos inimigos não escala. Pelo menos nos testes que fiz com um amigo passamos por três fases em metade do tempo que eu já tinha feito anteriormente sem muito esforço.

Vale dizer que o título pode ser jogado totalmente em co-op, seja local ou online, com suporte para dois jogadores simultâneos, um controlando Wei e o outro controlando um dos outros monges.

Vale a pena?

9 Monkeys of Shaolin é bem divertido e desafiador nas primeiras fases, mas peca no pouco desafio oferecido a partir do meio do jogo, mesmo com a introdução de inimigos mais poderosos e com habilidades especiais.

Os cenários são bem bonitos em sua maioria e o estilo artístico apostando em uma mistura de cell shading com low poly é interessante para a proposta.

A leve pitada de RPG da árvore de habilidades e itens é muito interessante e experimentar as diferentes combinações é bem satisfatório, contudo infelizmente a maioria deixará seu personagem muito poderoso, desequilibrando a dificuldade do jogo.

A árvore de habilidades da Postura Mágica

Mesmo assim combinar os diferentes golpes e criar cadeias de combos voadores em conjunto com habilidades mágicas é excepcional e viciante, você realmente se sente como um personagem de o Tigre e o Dragão ou do Clã das Adagas Voadoras, e para quem cresceu assistindo esses filmes isso é o máximo.

Infelizmente no lançamento o preço de 9 Monkeys of Shaolin está um pouco desbalanceado em relação ao que ele tem a oferecer e apesar de ter gostado bastante do jogo não recomendo ele a preço cheio, mas em uma promoção acho que vale demais a experiência.

A análise de 9 Monkeys of Shaolin foi escrita com base em uma cópia de PlayStation 4 gentilmente cedida pela assessoria de imprensa do jogo.


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Papai Platina
Trophy hunter e pai de 3 filhos maravilhosos.