Análise Desperados III (PlayStation 4)

Lançado em 16/06/2020, Desperados III é um jogo de estratégia furtiva em tempo real com visão isométrica em 2D. Será que valeu a pena reviver essa franquia? Com certeza! Confirma os detalhes na análise!

Desperados III

Após o sucesso de Shadow Tactics – Blades Of The Shogun, o estúdio alemão apresenta III, ressuscitando a franquia que estava em hiato desde 2006. é um jogo de estratégia furtiva em tempo real com visão isométrica em 2D. Diferentemente de outros jogos de estratégia, não controlamos exércitos ou gerenciamos uma população, mas um grupo de foras-da-lei que liderados pelo caubói John Cooper.

Pra você que nunca jogou Desperados ou Commandos (clássicos do início da década de 2000) a estrutura das fases é simples: em um cenário, devemos controlar os personagens e fazê-los chegar a um objetivo utilizando suas habilidades únicas, sem sermos vistos pelos inimigos, pois o poder de fogo dos personagens é limitado.

Em Desperados III podemos controlar o protagonista John Cooper e seu parceiro cheio de truques Doc. McCoy, a trapaceira Kate O’Hara, o brutamontes mexicano Hector Mendoza e a feiticeira Isabelle Moreau em uma aventura que se passa antes do jogo original. Cada personagem possui habilidades distintas que se complementam e o jogo nos coloca em situações que exigem sagacidade na hora de utilizá-los.

Velho velho-oeste

Desperados 3 cenário

A trama de Desperados III se passa antes do primeiro jogo e acompanha a saga de John Cooper em busca de vingança na ambientação que talvez seja a mais famosa (e trivial) de todos: o oeste dos Estados Unidos no final do século XIX. No entanto, se por um lado histórias no velho-oeste sejam lugar-comum nas narrativas de filmes e videogames, é um cenário muito confortável para nós jogadores encontrarmos arquétipos clássicos, como o pistoleiro semi-cafajeste, o brutamontes mexicano e outros tipos vistos inúmeras vezes em todo material que bebe na fonte dos italianos Sergio Leone e Enio Morricone (incluindo Tripa-Seca e a Rosa Ruborosa) e isso significa apenas que controlar os bando de protagonistas de Desperados III é divertidíssimo.

A jogabilidade básica é a mesma do jogo original, lançado em 2001 e revitalizada também em “Blades of The Shogun” em que os inimigos patrulham uma área e possuem um cone de visão. O jogador deve cumprir os objetivos, de preferência sem ser detectado, pois além de levar a um combate que geralmente não termina bem, os inimigos acabam chamando reforços que deixam a missão mais difícil.

Cada missão é um verdadeiro quebra-cabeças a ser solucionado, pois os mapas são abarrotados de inimigos que estão de olho em todos os cantos, sempre um cobrindo o campo de visão do outro, então a boa utilização das habilidades de cada personagem é essencial. John Cooper possui uma moeda que pode jogar no chão para distrair os inimigos, assim como Doc McCoy com sua maleta e Hector Mendoza com um forte assobio. Enquanto Cooper pode matar inimigos à distância sem fazer alarde com um arremesso de faca, McCoy precisa chegar perto para aplicar uma dose de veneno. Já Hector utiliza a sutileza de um no crânio dos inimigos. A machadada é silenciosa, no entanto.

Conforme avançamos no jogos encontramos novos personagens para auxiliar na jornada como a sedutora Kate O’Hara, que usa todo seu charme para distrair os inimigos, disfarçando-se para cruzar os cenários sem chamar atenção. Por fim, Isabelle Moreau é uma excelente adição à fórmula do jogo, podendo hipnotizar os inimigos e controlar animais de forma a mudar o rumo de uma missão. Além disso, todos os personagens possuem uma arma de fogo com características únicas e podem escolher entre matar ou nocautear um inimigo com o ataque corpo-a-corpo.

Desperados 3 Kate Ohara

Para fazer frente à essa equipe cheia de recursos há uma boa gama de inimigos, inclusive aqueles que são imunes aos engenhos dos protagonistas. Embora o tipo de pistoleiro mais simples seja suscetível a qualquer habilidade, a detecção por qualquer deles quase sempre resulta em game over, uma vez que são, quem diria, rápidos no gatilho. Além deles, temos os “Ponchos” que são imunes à distrações e os “Long Coats”, os inimigos mais perigosos do jogo que podem detectar Kate por baixo do disfarce e precisam levar alguns tiros para serem derrotados. Eu mencionei que os inimigos também tem cachorros que podem nos farejar? Pois é… Todos estão espalhados pelo cenário e movimentam-se constantemente criando em cada fase, repito, um quebra-cabeças para ser resolvido.

Desperados III é um jogo bastante desafiador (a desenvolvedora recomenda o uso de quick-saves sem pudor) de modo que estamos sempre em cheque, cercados por inimigos de todos os lados. Não há como não sentir uma gostosa satisfação quando conseguimos superar as enrascadas em que os personagens se metem, pois o jogo permite que possamos traçar a estratégia que bem entendermos para ultrapassar o desafio proposto. Quer matar todos silenciosamente? Vá em frente. Prefere um bom tiroteio? Espero que as balas sejam suficientes. Quer passar ao largo dos inimigos sem ser detectado? Boa sorte. Não existem regras e as fases podem ser abordadas da maneira que o jogador quiser.

O capeta mora nos detalhes

Desperados 3 ponte

Eu me lembro de ter jogado Desperados original lá no começo da década de 2000 e ficar impressionado com a beleza do jogo. Ao contrário da tendência da época, Desperados era um jogo com belos gráficos desenhados em 2D e cenários ricos em detalhes, algo que não foi preservado na “Cooper’s Revenge”. A Mimimi Games capturou o espírito do jogo original e assim, Desperados III não busca reinventar a roda e traz de volta gráficos que simulam desenhos em duas dimensões feitos na engine Unity. As fases são belíssimas e com cores vivas, possuindo tantos detalhe que chegam a ser uma atração à parte. Cada pedaço do cenário possui sua própria dinâmica com os inimigos e NPCs, trazendo vida ao jogo e deixando a ambientação bastante orgânica e crível de modo que a inserção dos protagonistas não pareça forçada.

Desperados 3 cone view

O desenho de som também é bastante competente, produzindo efeitos sonoros para praticamente tudo que vemos na tela, sobretudo porque nós também fazemos barulhos que podem ser ouvidos pelos inimigos, inclusive com indicação visual das ondas sonoras e o alcance delas na tela. A também é ótima, com peças que evocam o clima épico da aventura no velho-oeste, muito embora o tema principal do jogo não seja tão inspirado quanto as demais músicas e acabe tocando por tempo demais na tela de carregamento. Infelizmente o jogo não possui vozes nem legendas em português brasileiro, o que pode afastar uma parcela dos jogadores aqui no Brasil.

Desperados 3 noite

Os controles são bastante simples para um jogo com tantos recursos, sobretudo porque agrupam a maior parte das ações em um mesmo botão que se desdobra em mais opções (pense no uso das habilidades em RPGs como Dragon Age ou Divinity: Original Sin), mantendo uma simplicidade louvável, uma vez que quando o plano dá errado, é necessário agir rápido, selecionando o personagem adequado e a habilidade correta em milésimos de segundo (ou deixar os personagens morrer e carregar o último save).

O grande destaque fica para a mecânica Showdown. Ao acioná-la, podemos planejar as estratégias, engatilhando ações simultâneas de dois ou três personagens ou ações sequenciais de um único personagem, enquanto controlamos outro. Tudo isso enquanto o jogo fica paralisado. Escolher um plano e vê-lo funcionar perfeitamente é excelente! Todavia, tive um pouco de dificuldade em criar uma cadeia de ações com um personagem, utilizando uma habilidade em cada etapa, arremesso de faca seguido de um tiro, por exemplo. Mas ainda assim, é uma mecânica muito bem implementada e acrescenta pontos ao facilitar a execução de ações simultâneas complexas.

Achou pouco? Tem mais!

Desperados III é um jogo rico em mecânicas e aspectos que trazem conforto ao jogador, como a facilidade de salvar e carregar o jogo, inclusive com a opção de carregar 3 saves anteriores (para aqueles que têm o dedo nervoso e salvam na hora errada como eu); a possibilidade de girar a câmera e ver o cenário por outro ângulo; pode colocar uma marcação em um ponto do mapa e obter informações sobre quais inimigos estão vigiando aquele lugar; níveis de detecção nos cones de visão dos inimigos; a possibilidade de esconder os protagonistas em arbustos e casas e acionar armadilhas do próprio cenário para dar cabo dos pistoleiros.

Desperados 3 desafios

Existem ainda desafios a serem completados em cada fase, como utilizar este ou aquele método para eliminar os inimigos ou um grupo destes, rendendo uma avaliação de uma a três estrelas. Ao final de cada fase podemos ver um resumo da estratégia utilizada e somos informados sobre quais desafios foram completados e quais ainda estão pendentes, trazendo um fator de replay considerável. Também existem vários níveis de dificuldade e uma generosa customização dos ícones que vemos na tela, inclusive da forma que a câmera se comporta, seguindo os protagonistas ou ficando livre para movimentarmos.

Desperados 3 revisão

Vale a pena? Muito!

Por fim, não há como não aplaudir a iniciativa da Mimimi Games em revitalizar o gênero de estratégia furtiva e trazer de volta à luz uma franquia tão querida com Desperados III e fazê-la funcionar tão bem em um . Gráficos belíssimos, trilha sonora no clima certo, controles simples e responsivos, aliados a um desafio honesto fazem de Desperados III alcançar tudo que se poderia esperar dele. Criar estratégias e vê-las funcionando para superar os desafios propostos ou mesmo improvisar quando nada mais parece funcionar e montar o quebra-cabeças de cada fase, que às vezes chega a durar horas para ser finalizado passa a legítima sensação de termos o gatilho mais rápido do oeste.

Desperados III foi desenvolvido pela Mimimi Games e publicado pela THQ Nordic e está disponível para Xbox One, PlayStation4 e Master Race. A foi feita com base em uma cópia digital do jogo para PlayStation 4 gentilmente cedida pela THQ Nordic.


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Tiago Matias Escobar
Metaleiro não uniformizado. Cerveja, pizza, games e viagens ocasionais.