Análise Dread Nautical (PS4)

Embarque no cruzeiro infernal de Dread Nautical e descubra se esse RPG tático com elementos de sobrevivência e combate em turnos vale a pena ou não.

Dread Nautical Divulgação

Dizem que a primeira impressão é a que fica, e a minha de não foi nada boa inicialmente.

Felizmente o jogo teve a capacidade de contrariar esse ditado, e após finalizá-lo com 30 horas de altos e baixos, raivas e alegrias, consigo dizer que ele subiu no meu conceito. Ainda assim, é um título muito específico, recomendado apenas para um tipo ainda mais específico ainda de jogadores.

O que me chamou a atenção para o game em um primeiro momento foi ele ser um com uma história baseada na cultura sobrenatural de H.P. Lovecraft. Esse estilo e temática me agradam bastante, e dois dos jogos que mais gostei de escrever em 2020 para o Conversa foram, respectivamente, sobre esses temas: Help Will Come Tomorrow e Moons of Madness.

Pensando nisso Dread Nautical seria perfeito para mim, já que ele mesclaria esses dois ingredientes e acrescentaria uma pitada de mistério ao estilo maldição do Triângulo das Bermudas na receita por ser a bordo de um navio.

Dread Nautical Cutscene
O estilo de arte não me agradou também

E essa foi a minha primeira decepção, apesar dos temas ricos, o game não desenvolve uma história muito densa em torno dos mitos de Cthulhu e afins, sendo a narrativa apenas um pano de fundo, bem simplório, para o desenvolvimento da jogabilidade.

Talvez eu tenha ido com uma expectativa muito alta para a história e esse começo morno foi bom para nivelar logo o tom da aventura. Dread Nautical ainda teria oportunidade de me surpreender com o seu gameplay e mecânicas. E isso ele conseguiu, quando o loop de jogabilidade me fisgou eu não queria mais parar. O problema é que ele demora até quase metade do game para começar a fazer isso, e talvez nem todos os jogadores tenham paciência para esperar tanto.

Contemplando as profundezas

Se você é fã de RPGs táticos como XCOM, Desperados, Gears Tactics e afins saiba que Dread Nautical é um título bem introdutório ao gênero, com mecânicas bem básicas e simples. Um nível maior de planejamento será requerido nas últimas fases, mas em um aspecto geral o jogo é fácil se a dificuldade escolhida for a Normal (ao tentar escolher Difícil ou Insano, o game aconselha a jogar no Normal em uma primeira jogada) e isso cria dois problemas.

Dificuldades
As 3 dificuldades de Dread Nautical

O primeiro é que em jogos táticos ou de (e aqui existe a combinação desses dois gêneros) o jogador precisa sentir tensão. É preciso estar alerta ao que pode ser perdido, seja um companheiro, uma arma preferida ou um recurso importante. O perigo de perder é uma constante, mas o jogador tem que fazer tudo para evitar isso.

Na dificuldade recomendada perder não tem consequências severas. Não importa se um sobrevivente morreu em um nível, ele retorna ileso para base, e não importa se ao morrer suas armas ficaram para trás, você vai encontrar novas (e às vezes melhores) em um próximo nível. E ao retirar esse peso, a parte tática é bastante prejudicada.

E essa situação se mantêm mais ou menos até a metade do game, e é onde o segundo problema começa a dar as caras.

Por não preparar o jogador para o pior, ou por de certa forma tolerar um gameplay menos técnico por ser fácil demais, quando surgem inimigos mais fortes Dread Nautical dá um salto de dificuldade grande, chegando a ser injusto.

E não é uma dificuldade construída gradualmente, ela chega de uma vez. BOOM!!!! A partir daqui o jogo é difícil, acostume-se.

Dread Nautical Gameplay
Depois de se juntar ao seu grupo até 3 sobreviventes podem ser controlados por vez

Não é algo que te incentiva a ser melhor ou superado quando o jogador aprende com seus erros, mas sim uma dificuldade artificial, que serve apenas para alongar o tempo de duração do jogo ao incentivar o farming de fases anteriores para coleta de recursos.

Seria melhor se cada nível ficasse mais difícil ao invés de jogar a bomba no colo do jogador já prestes a explodir de uma vez. Um lado positivo dessa escalada de dificuldade é que ela faz com que o jogador se preocupe mais com os elementos RPG e survival de Dread Nautical, e nessa parte ele começa a ficar mais interessante.

O que ele tem de bom?

A parte de gerenciamento de base de Dread Nautical é muito boa e passa a ser fundamental após esse salto de dificuldade.

O game tem 20 fases, e cada uma funciona como se fosse um convés do navio. Em cada deck o jogador pode encontrar sobreviventes, armas, comida, sucata, runas e uma variedade de monstros.

Sobreviventes têm uma barra de “convencimento” e você precisa responder de forma correta determinadas perguntas ou realizar pequenas missões secundárias para que essa barra seja preenchida. Quando completa essa pessoa pode ser recrutada e se juntar ao seu grupo, e a partir daí eles podem ser levados com você nas próximas missões.

Dread Nautical Sobrevivente
A escolha de diálogos correta pode fazer um NPC se juntar ao seu grupo mais rapidamente

Porém para que esses NPCs possam ser recrutados é preciso que a base tenha condições para recebê-los, ou seja, é preciso providenciar acomodações para eles. Se um sobrevivente resolve se juntar ao seu bando, mas você não têm camas suficientes alguém precisa deixar o grupo. Além disso, é preciso entender que cada sobrevivente consome uma unidade de comida após as missões, estejam eles ativamente participando delas ou não.

Isso cria uma dinâmica interessante caso precise ou queira farmar. Níveis muito fáceis não apresentam riscos, mas também não têm recompensas suficientes, e talvez repetir determinados decks irá apenas criar um déficit de recursos e você precisará escolher quem irá comer e quem ficará com fome até a próxima rodada. O detalhe é que sobreviventes mal alimentados terão menos pontos de e menos pontos de ação.

Cada movimento simples no grid consome 1 ponto de ação e cada arma usada consome X pontos dependendo do tipo e dano dela. É possível melhorar os atributos dos personagens para que eles tenham um número maior de pontos de ação, mais vida, e afins na Estação Ocultista da base gastando runas. Já armas podem ser recarregadas e melhoradas no Estúdio de Criação gastando-se sucata.

Os NPCs que acompanham o jogador têm uma barra de pânico e por conta dos horrores presenciados no navio precisam descansar periodicamente no Posto Médico, o que faz com que o recrutamento de novos sobreviventes seja vital para efeitos de revezamento.

Posto Médico
A partir do nível 3 o Posto Médico pode receber até 2 sobreviventes por vez

Toda essa parte de gerenciamento é muito bem construída e interessante, o que me deixa ainda mais chateado por ela não ter sido melhor implementada ou apresentasr um peso mais significativo desde o início do jogo.

Outros pontos positivos são a variedade de armas e seus efeitos e a diversidade de inimigos. Mesmo que alguns designs sejam reaproveitados aqui ou ali, cada tipo de inimigo tem uma resistência e fraqueza específica que precisam ser descobertas e podem ser consultadas no códex de Dread Nautical.

Isso significa que para que você esteja pronto para qualquer situação os membros do seu grupo precisam ter armas que causem tipos de dano diferentes, e não necessariamente elas serão as melhores do seu inventário. Não adianta ter um rifle sniper com poder altíssimo se o inimigo for imune a dano perfurante ou à distância.

Mas de novo, o jogador só vai aproveitar essas experiências em sua plenitude a partir da metade do jogo, e apesar de ter usado essas mecânicas desde o início, a importância e diferença que elas farão na jogabilidade são quase irrisórias no começo.

Dread Nautical Códex
O códex pode ser consultado a qualquer momento para vantagem tática

Vale a pena?

Dentro do gênero de RPG táticos existem muitos jogos que fazem a parte estratégica melhor do que Dread Nautical, contudo os elementos de sobrevivência e gerenciamento de base dele são bem construídos e implementados quando resolvem ser necessários.

Não joguei na dificuldade Insano, mas terminei no Normal e joguei mais dez fases (das vinte) no Difícil. A diferença do Difícil para o Normal se baseia na perda de todo o seu equipamento, inclusive o do seu inventário na base caso você morra, também senti que a quantidade de recursos encontrados era ligeiramente menor no Difícil.

Mas mesmo no Normal a dificuldade se torna um pouco desproporcional no terço final e é preciso utilizar todos os recursos disponíveis para sobreviver, e mesmo com tudo no máximo a batalha final é ridiculamente difícil e longa.

O estilo artístico, que me lembrou muito o Miitomo da Nintendo, e a geração procedural dos decks não me agradou. Mesmo que a intenção seja criar um fator replay, as fases acabaram ficaram pouco inspiradas e repetitivas, e as cutscenes que mostram com detalhes os personagens evidenciam ainda mais esse visual estranho, mas isso é uma questão de gosto pessoal.

Dread Nautical Apex
Uma pedra com tentáculos no sapato

Dread Nautical tinha tudo para ser ótimo: uma história baseada em uma mitologia famosa e elementos consolidados em dois gêneros adorados por muitos, mas algumas decisões de design e principalmente de ritmo dificultaram que ele alcançasse o seu propósito.

A tradução das mecânicas feitas inicialmente para telas de toque (o jogo foi lançado originalmente para dispositivos iOS em 2019) para o dualshock do PlayStation 4 foi razoável, e embora seja fácil alternar entre personagens e mudar os itens em uso, em alguns momentos a seleção dentro do grid tático durante uma batalha se torna bastante imprecisa.

É difícil recomendar Dread Nautical já que apesar de ter gostado de diversos elementos dele, no conjunto da obra ele falha em entregar uma jogabilidade refinada e uma experiência mais uniforme. Mas se você gosta muito dos gêneros de sobrevivência ou RPG táticos e já jogou todas as pratas da casa e está carente de títulos do estilo, considere conferir o game em uma promoção.

Cutscene Final

Desenvolvido e publicado pela Zen Studios, Dread Nautical foi lançado para PlayStation 4, Xbox One e Windows em 29 de abril de 2020 e conta com legendas em do Brasil.

A análise de Dread Nautical foi escrita com base em uma cópia de PlayStation 4 gentilmente cedida pela assessoria de imprensa do jogo.

Papai Platina
(Pouco) conhecido como Willian. Marido, pai de três filhos maravilhosos, fã de Stephen King, filmes toscos e trophy hunter nas horas vagas. No twitter como @papaiplatina. PSN-ID: willianmarques.