Análise Kingdom Two Crowns (PlayStation 4)

O estilo minimalista e o visual deslumbrante fazem Kingdom Two Crowns ser um jogo de estratégia de estilo único. Confira nossa análise!

Kingdom Two Crowns Title

O gênero de jogos de estratégia é vasto e acolhe as várias formas de abordagem que a criatividade dos desenvolvedores pode conceber, sobretudo devido à não exigência de gráficos foto-realistas em 3D para que a proposta do jogo seja realizada, bastando que o desafio proposto seja satisfatório e exija um bom raciocínio do jogador.

Nesse panorama, Kingdom Two Crowns surpreende com a utilização de uma apresentação diferenciada. Geralmente, jogos do gênero possuem a uma visão aérea e isométrica de toda a área disponível para ser gerenciada, como vemos, por exemplo nos clássicos de RTS e Age of Empires, por exemplo, ou ainda no moderno They Are Billions. Em Kingdom Two Crowns, tudo acontece em um único plano horizontal (side-scrolling), no qual o governante, rainha ou rei, pode controlar a expansão do reino ao mesmo tempo que o proteja de criaturas gananciosas, avisas para lhe tomar a coroa.

Kingdom Two Crowns

Construir, Expandir e Defender

Essas são as mecânicas principais do jogo, exercidas pela rainha ou rei. A construção e manutenção dos edifícios começa com a localização dos recursos mais preciosos de qualquer país: pessoas. Utilizando moedas podemos recrutar súditos e designá-los para realizar determinadas tarefas. Caçar e construir são as tarefas mais básicas e essenciais, pois os caçadores serão àqueles encarregados de proteger o reino durante as noites, enquanto os construtores ficarão responsáveis pelas estruturas de defesa, como muros e torres de artilharia. Enquanto a rotina na capital do reino de desenvolve de maneira automática (não é necessário ficar cuidando dois afazeres de cada unidade ou grupo) cabe ao governante buscar mais recursos para a expansão do reino.

Esse ciclo de jogabilidade é muito satisfatório. Ao nascer de cada dia temos uma nova oportunidade de executar a expansão do reino, construindo novas estruturas e limpando a área para ampliação da capital. Essa expansão é gradual e limita-se pela disponibilidade de recursos (moedas), que são ganhos por meio do trabalho diário de caçadores, agricultores ou comerciantes enquanto o sol não tiver se posto.

Kingdom Two Crowns

No fim do dia, monstros surgirão prontos para roubar as melhorias implementadas no reino. Eles podem destruir muros não reforçados e derrubar os trabalhadores, retirando-lhes a ferramenta do ofício e as moedas que estiverem carregando (o que nos obriga a investir novas moedas para designá-los novamente). Se as moedas acabarem, os monstros investirão contra você, rei ou rainha, causando o término do jogo se conseguirem tomar a coroa.

É nesse equilíbrio que Kingdom Two Crowns encontra o ponto exato do gameplay estratégico, pois devemos incorporar os recursos ganhos durante o dia para evitar que se percam (seja por ataques ou pelo simples descarte do excesso acumulado), mas sem perder de vista a utilização de moedas na melhoria e criação de unidades que possam gerar mais dinheiro, pois de nada adianta uma cidade bem construída, mas que não gera recursos, uma vez que as moedas são utilizadas também para desbloqueio de novos itens e ofícios aos súditos. Acrescente-se a isso a impossibilidade de andarmos livremente pelo mapa, pois nossa montaria irá cansar se exigida demais e precisará fazer uma pausa para descansar ou se alimentar, abrindo brecha para ataques dos inimigos que tem hora marcada para saírem da toca.

Navegar é preciso

Kingdom Two Crowns poderia manter o gameplay nesse ciclo sem cessar, simplesmente nos fazendo expandir o reino e defendê-lo, mas de maneira muito inteligente, o jogo nos convida a sair da zona de conforto de uma cidade toda estruturada e aceitar novos desafios em uma nova área, completamente vazia. Isso, por que durante a exploração do mapa, iremos encontrar certos marcos e estruturas que podem ser habilitadas, não com moedas, mas com diamantes e esses recursos não são localizados na nossa “ilha” e devemos viajar para outras terras em busca das pedras preciosas e outras matérias-primas como pedra, por exemplo.

Kingdom Two Crowns

Ao reparar um navio, temos a oportunidade de zarpar para um novo mapa, onde recomeçaremos toda o ciclo de construir, defender e expandir, mas desta vez em um cenário diferente, com menos recursos, aumentando a dificuldade do jogo. Essa é, na essência, a estrutura de fases de Kingdom Two Crowns, com cada ilha representando um estágio, com novos desafios a serem cumpridos e melhorias a serem desbloqueadas (novas montarias, por exemplo), fazendo com que o jogo tenha uma longevidade considerável.

A única ressalva que eu faria em relação ao gameplay, seria a lentidão do ritmo no começo do jogo, já que fica mais complicado viajar de um lado para o outro do reino à medida que ele vai crescendo. Mas isso é mais uma característica do jogo antes dos upgrades do que necessariamente um problema.

Um jogo deslumbrante

Se por um lado, o gameplay é o núcleo onde reside grande parte da qualidade de Kingdom Two Crowns, a apresentação do jogo não deixa nada a desejar.

Dizer que Kingdom Two Crowns possui belos gráficos é um eufemismo, pois a pixel art do jogo é nada menos que sensacional. Toda a qualidade técnica apresentada na jogabilidade é emoldurada por belíssimos cenários e paisagens que dão vida ao mundo representado na tela, com um óbvio destaque para o reflexo de tudo que é exibido na porção de água que circunda a área de jogo (inclusive com efeitos relativos ao clima do dia).

Kingdom Two Crowns

Os personagens, ainda que bastante pixelados são únicos e facilmente distinguíveis uns dos outros, facilitando a localização e identificação das unidades dispostas pelo reino. A imersão do jogo é criada também pela ausência de mapas ou outros tutoriais mais detalhados, havendo apenas um “fantasma” que nos guia quando é necessário introduzir alguma mecânica nova no jogo. No mais, temos que entender sozinhos como funciona a administração do reino, a defesa, a realização de melhorias e, sobretudo, como seguir à diante.

As músicas da trilha sonora também acompanham a jogabilidade com leveza e ajudam a manter-nos focados nas tarefas a serem realizadas sem criar qualquer tensão, ao contrário de jogos em que parece que estamos desarmando uma bomba-relógio (estou falando de você, Frostpunk).

Kingdom Two Crowns

Aliás, voltando um pouco ao gameplay, tudo em Kingdom Two Crowns acontece de maneira leve, tranquila. Podemos passar horas gerenciando o reino sem muitas implicações (obviamente o jogo não avança), mas fica clara a intenção dos desenvolvedores de criar algo que não cause mais dores de cabeça do que nós jogadores já temos ao lidar com a vida. Assim, Kingdom Two Crowns é quase um jogo-terapia, que convida aqueles que se interessarem a passar bons momentos na frente da televisão ou computador, simplesmente jogando videogames.

Como se um jogo bom não fosse o bastante, Kingdom Two Crowns ainda traz outras duas ambientações, e Dead Lands. A primeira permite experimentar o jogo utilizando a temática medieval japonesa e a segunda traz Miriam, a protagonista de Bloodstained: Ritual Of The Night, como governante em uma ambientação inspirada no metroidvania (particularmente, eu acho que a ambientação de Bloodstained não funcionou muito bem, mas deve agradar aos fãs da franquia de Koji Igarashi). Também estão disponíveis ilhas de desafio dentro do jogo, onde o jogador deve encarar cenários com modificadores únicos e um modo cooperativo de até 2 jogadores, online ou offline. Eu só posso recomendar.

Kindgom Two Lands foi desenvolvido pela Noio e publicado pela para as plataformas PC, Xbox One, PlayStation, Nintendo Switch, e Android.

A análise foi feita com base em uma cópia de gentilmente fornecida pela assessoria de imprensa do jogo.


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Tiago Matias Escobar
Metaleiro não uniformizado. Cerveja, pizza, games e viagens ocasionais.