Análise Mafia: Definitive Edition (PS4)

O remake de Mafia: Definitive Edition presta uma grande homenagem ao manter a essência do jogo original aliado a uma jogabilidade e história mais modernas, mas esbarra em problemas técnicos.

O fascínio por anti-heróis não é novidade na cultura pop, mas a área cinza que separa o que é estritamente bom do que é puramente mal tem ficado cada vez mais nublada. Vários estudos apontam que ao inserir um protagonista imperfeito é criada uma conexão mais forte com quem consome uma obra por apelar para uma questão fundamental: O que eu faria nessa situação?

Você sabe que Walter White não é o mocinho de Breaking Bad, e mesmo assim fica aliviado quando ele consegue escapar de uma enrascada mesmo que outras pessoas sejam prejudicadas no processo. Por outro lado, provavelmente ficaria revoltado ao assistir no jornal um ex-professor envolvido com tráfico de drogas e assassinatos.

Obviamente o limite entre ficção e vida real é abissal, mas não deixa de ser curioso como nós nos envolvemos com personagens quebrados desde que consigamos estabelecer algum tipo de conexão com eles.

E se afeiçoar a Tommy Angelo em Mafia: Definitive Edition é inevitável, aliás, se importar com todos os personagens do núcleo central do jogo é quase automático.

Tommy Angelo

O conceito de lealdade, respeito e união que jogos, filmes, séries e livros sobre Máfia trazem é muito envolvente. Combine a isso personagens que parecem sempre estar no controle da situação, vestidos de forma impecável e você tem a receita para a romantização do crime organizado.

E quando for preciso fazer algo realmente cruel e condenável todo esse charme anterior vai ter criado uma espécie de anestesia moral, afinal o seu personagem não pode ser o vilão da história, você entende as motivações dele, você riu das piadas dele, ele é apenas alguém que precisou fazer coisas extremas em um tempo de desespero.

O problema é que em Mafia toda ação tem a sua consequência e enquanto você tenta se convencer que Tommy está agindo corretamente dentro dos seus próprios princípios é quando percebe que existem preços altos demais para se pagar.

Apego às tradições

O remake de Mafia: Definitive Edition foi desenvolvido pela Hangar 13 com publicação pela 2K Games, subsidiária da Take-Two Interactive Software, baseado na obra originalmente desenvolvida pela Illusion Softworks e lançado em 25 de setembro de 2020 para PlayStation 4, Xbox One e plataformas Windows.

As cutscenes são muito bem dirigidas

Mafia conserva o máximo possível do game original, mas moderniza mecânicas de jogabilidade, atualiza os diálogos e dá mais profundidade aos personagens tornando eles críveis e mais cativantes.

E enquanto o arco de missões continua bem similar, elas estão mais dinâmicas: algumas envolvem tiroteios, outras usam elementos de furtividade e algumas são baseadas em corridas e perseguições. Contudo todas têm uma estrutura bem linear que envolve receber ordens, usar um veículo para chegar ao local, realizar o objetivo e voltar de carro para o esconderijo.

Além do modo história existe um outro chamado Direção Livre em que o jogador pode explorar a cidade sem se preocupar com objetivos, mas não se engane Mafia não é um mundo aberto com muita atividade: existe trânsito, NPCs com comportamento dinâmico, mas é tudo superficial e você não consegue interagir significativamente com eles ou entrar em muitos prédios.

Mafia tem um mapa grande, mas não oferece muita coisa para se fazer nele a não ser encontrar colecionáveis.

O mapa está muito similar ao jogo original

Um ponto positivo é que mesmo a cidade de Lost Heaven aqui não sendo uma representação um para um da cidade do jogo original, quem jogou na época vai sentir uma onda de familiaridade e nostalgia imensa ao dirigir com o rádio ligado por essas ruas reconstruídas de forma tão carinhosa e fidedignas.

Tempos difíceis

A história de Mafia: Definitive Edition se passa nos anos 30 e acompanha a trajetória de como Tommy Angelo passou de um simples taxista sem nenhuma perspectiva vivendo as consequências da Grande Depressão no auge da Lei Seca para homem de confiança e um dos principais pilares da Família Salieri.

É uma clássica história de como operava a Cosa Nostra nos Estados Unidos na época, então espere encontrar todos os clichês que você já deve ter visto um milhão de vezes em diversos filmes, séries e documentários sobre o assunto, desde atividades corriqueiras e com pouco peso como extorsão até mudanças consideráveis no jogo do poder devido às guerras entre famílias mafiosas rivais. Mas isso não é um defeito na minha opinião, eu adoro esse tipo de história.

E se a narrativa continua basicamente a mesma do jogo original, a principal adição como mencionado anteriormente foi a profundidade dada aos personagens, seja por conta de como o texto foi reescrito para se adequar a um ritmo mais moderno, seja pela excelente dublagem em Inglês dos personagens.

A qualidade das dublagens é sensacional e o game está legendado em Português

É uma das interpretações mais críveis que vi em muito tempo em games devido as ênfases, pausas e respiração dos dubladores. É possível sentir o peso de uma vida de crimes na respiração de Tommy, e isso é fantástico. Vale mencionar que os dubladores não são os mesmos do jogo de 2002, e se isso pode incomodar um pouco fãs de longa data, na minha opinião o trabalho feito ficou excepcional.

Visualmente Mafia é um jogo muito bonito: as cutscenes são lindíssimas, os cenários são detalhados, os carros e a iluminação (principalmente a noite) são muito bem-feitos. Por outro lado, NPCs e principalmente a movimentação dos personagens deixa muito a desejar.

A forma que Tommy e seus companheiros andam é extremamente robótica e o combate corpo a corpo é muito esquisito.

E se considerarmos que o motor gráfico usado é a mesmo de Mafia III o combate se torna ainda mais estranho já que a porradaria nele é muito mais visceral e “realista” do que neste remake. É algo com o qual você se acostuma, mas fica a impressão de que faltou orçamento ou polimento nessa parte e isso quebra bastante a imersão em alguns momentos.

O combater corpo a corpo para mim é a pior parte do game

O combate com armas é bem simples, mas funcional: você se esconde em uma cobertura enquanto tenta derrotar inimigos que irão flanquear, mas como a inteligência artificial deles é bem mais ou menos mesmo na maior dificuldade conseguir sequências de headshots não é tão difícil.

Já a variedade de armas vai depender da missão e se você não estiver satisfeito com as armas escolhidas para você (e não por você) no início de um capítulo é possível pegar as que forem deixadas por inimigos mortos no chão.

A campanha conta com 20 missões de história relativamente curtas e alguns interlúdios mostrando a visão de Tommy sobre acontecimentos que mudariam o rumo da história dele no submundo do crime.

A duração do game vai depender muito da dificuldade escolhida, mas o tempo médio deve variar entre 12 a 15 horas para concluir a história e mais uma 6 ou 8 horas no free roam para conseguir todas as coleções de carros e revistas para quem for complecionista.

O combate com armas é simples, mas é bom apesar de fácil

Vale a pena?

Mafia: Definitive Edition é um jogo muito bom que poderia ter sido excelente.

É um remake muito bem construído e que moderniza um clássico para uma geração que talvez não tenha tido contato com o game original. A direção de dublagem, trilha sonora e a iluminação dinâmica deixaram o jogo incrivelmente bonito, mesmo no PlayStation base que foi onde joguei para este review.

Ao mesmo tempo faltou um pouco de refinamento em alguns segmentos, principalmente os relacionados ao combate corpo a corpo e movimentação dos personagens e isso me incomodou bastante. Mas essa percepção obviamente vai depender da tolerância de cada um.

Eu tive alguns bugs onde cenários sumiam ou NPCs que ficavam girando no ar, mas nada que impediu meu progresso ou que fosse frequente e como foram coisas pontuais imagino que um patch de correção resolva isso facilmente.

Sarah é uma personagem muito mais completa nesse remake

Algumas pessoas podem se incomodar com a estrutura linear e guiada das missões, mas eu adorei. Para a história que queriam contar essa narrativa mais direcionada é uma forma muito inteligente de manter o jogador envolvido e querendo saber o que vai acontecer no próximo capítulo.

Os personagens estão muito mais realistas quando comparadas ao original, principalmente Paulie e Sarah que tem toda uma nova gama de diálogos, reações e importância na história, sendo assim mais fácil de se afeiçoar a eles neste remake.

Mafia: Definitive Edition pode ser adquirido separadamente ou como parte da coletânea Mafia Trilogy, que traz além deste remake os remasters de Mafia II e III. Considerando que Mafia III é desta geração é um pouco estranho ele ser classificado como remaster, mas se você procura um pacote único com os 3 jogos a opção existe.

A análise de Mafia: Definitive Edition foi escrita com base em uma cópia de PlayStation 4 gentilmente cedida por um leitor do site em uma oferta que nós não pudemos recusar.


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Papai Platina
Trophy hunter e pai de 3 filhos maravilhosos.