Análise Marvel’s Avengers (PlayStation 4)

Em setembro, quase um ano depois do final da saga do MCU nos cinemas, chega Marvel’s Avengers para a atual geração de consoles e PC, desenvolvido pela Crystal Dynamics e publicado pela Square Enix. Valeu a pena esperar tanto tempo?

Avengers-cover-image

Desde 2008 o mundo da cultura pop vive em alvoroço. O sucesso da Marvel Studios no cinema criou toda uma geração de novos fãs de personagens criados em meados do século passado. Se antes os super-heróis eram conhecidos apenas por fãs de HQ, agora faziam parte do imaginário coletivo, sobretudo após a aquisição da Marvel pela Disney, quando todo tipo de mercadoria passou a estampar os personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby. A euforia foi tão grande que é possível afirmar que o Universo Cinematográfico Marvel mudou bastante a cara das superproduções de Hollywood, estabelecendo uma tendência para os filmes de ação nos anos seguintes. O auge desse movimento aconteceu em 2019, com o lançamento de Vingadores – Ultimato, filme que encerrou um arco narrativo de 11 anos e 22 filmes.

Eis que, em setembro/2020, depois de passado toda o hype causado pelos Heróis Mais Poderosos da Terra nos cinemas, Marvel’s Avengers chega para a atual geração de consoles (e PC), desenvolvido pela Crystal Dynamics e publicado pela Square Enix. Valeu a pena esperar tanto tempo?

Avengers Kamala
Kamala Khan é muito fã dos Heróis Mais Poderosos da Terra.

Herói-celebridade

Marvel’s Avengers é um produto híbrido, pois conta com uma campanha mais ou menos single player e também possibilita a realização de missões em um multiplayer com até 04 jogadores (exclusivamente online).

A campanha é excelente! Começamos acompanhando um flashback com a adolescente Kamala Khan (Miss Marvel) no Dia-A em São Francisco, uma espécie de Comic-Con própria dos Vingadores, para o anúncio de uma tecnologia inovadora, baseada no cristal Terrigen e endossada pelos cientistas Bruce Banner, George Tarleton e Monica Rapaccini. Kamala é muito fã dos heróis que, à essa altura haviam sido alçados à condição de celebridades e rouba a cena com seu carisma de fangirl (ela é finalista em um concurso da fanfics), sendo impossível não criar uma conexão imediata com a personagem (afinal, também somos fãs).

Avengers Kamala fangirl
Uma fã de verdade quer mais que fan service!

Essa introdução guarda ótimas surpresas, mas o clima de festa logo se esvai quando um ataque terrorista é lançado na Ponte Golden Gate (trecho que estava presente em demos do jogo e no beta aberto), uma catástrofe que resulta na morte de milhares de pessoas, inclusive do Capitão América. Cinco anos depois cabe à Kamala Khan provar que a morte de Steve Rogers foi causada por Tarleton e reunir os Vingadores restantes, agora separados e execrados pela opinião pública. Embora não seja uma campanha muito longa (pode ser finalizada em cerca de 10 horas, na dificuldade padrão), a história é muito bem contada e possui uma carga dramática digna das melhores aventuras dos Vingadores no cinema, com destaque para o momento das aparições de cada herói.

Avengers Kamala e Banner
A conexão entre Kamala Khan e Bruce Banner é um dos pontos fortes da campanha.

Falando neles, devo reconhecer que a não utilização da aparência dos atores do MCU me causou grande estranheza durante a divulgação do jogo, mas o sentimento desaparece na medida em que os heróis surgem em cena. Eu diria que, depois de Kamala, o destaque fica para Tony Stark, que abandona aquela persona arrogante dos filmes e abraça uma versão divertida e carismática, sem deixar de ser falastrão, gênio, bilionário e filantropo. Conforme avançamos, a trama se adensa, com momentos intensos e inspiradores, como uma genuína história de super-heróis. A ameaça da AIM e Tarleton, rebatizado como o super-vilão MODOK, é palpável e oferece um perigo à altura dos Vingadores, segurando a nossa atenção a todo momento, sobretudo na grandiosa batalha final.

Assemble!

Embora a campanha não seja tão longa assim, o desafio proposto é honesto. Mesmo na dificuldade normal alguns trechos reclamam reflexos, não bastando apertar os botões repetidamente. O uso das habilidades de cada herói e a melhoria destas é essencial para derrotar os inimigos mais fortes do jogo, mesmo que não sejam chefes de fase.

Avengers Iron Man
Tony Stark mostra que não precisa de uma armadura completa!

O gameplay se divide entre progressão nos cenários e lutas. A progressão nos cenários (traversal) é fluida, com cada herói se deslocando de maneiras distintas, com auxílio do level design para alcançar áreas mais altas, por exemplo. Kamala e Viúva Negra conseguem chegar nas plataformas elevadas com arpéus (que no caso de Kamala é seu próprio braço, que se estica); já Thor e podem voar. Hulk dá grandes saltos e utiliza plataformas marcadas para um segundo pulo, que o leva mais longe, algo parecido com as corridas na parede de Titanfall, mas sem corrida.

Avengers equipamento
Podemos equipar os melhores equipamentos com o aperto de um botão.

Em geral os cenários são amplos e abertos, mas não possuem tantas áreas exploráveis. Geralmente o objetivo da fase fica a uma distância considerável e temos que nos deslocar até encontrá-lo. No caminho, encontramos caixas destrutíveis, com “fragmentos” ou “unidades”, moedas utilizadas para comprar melhores equipamentos e itens cosméticos. Também podemos encontrar baús com HQs que podem ser equipadas para melhorar algum atributo dos heróis, ou com elementos raros, utilizados no upgrade de equipamentos.

Avengers Thor
Thor rouba a cena em sua aparição no game!

O combate é muito bom e segue a cartilha da série e Spider-Man, embora não seja tão polido como na franquia da Rocksteady ou no jogo do Cabeça-de-Teia. Cada herói possui golpes únicos que podem ser melhorados com pontos de habilidade, em um sistema de progressão de RPG. É muito bom dominar os movimentos dos heróis e vê-los em ação, socando os vilões com as habilidades que tantas vezes vimos nas HQs ou no cinema, com golpes especiais que são carregadas à medida em que acertamos combos nos inimigos.

Em alguns trechos, é impossível não ficar impressionado com a quantidade de destruição causada pelos Vingadores, sobretudo quando Hulk está em cena. As melhores batalhas são contra robôs gigantes que aparecem em algumas fases. A escala do inimigo faz com que tudo seja épico e exige cooperação entre os jogadores, além de lembrar um pouco de Shadow Of The Colossus.

Avengers Boss Robot
Lutar contra robôs gigantes é muito bom!

Chimera – Bar & Lanches

Marvel’s Avengers é um jogo-serviço (game as a service). A estrutura de gameplay se desenvolve por meio de missões isoladas, mesmo na campanha. Assim que encontramos Hulk/Bruce Banner na campanha (lá pela terceira missão), temos acesso à Mesa de Guerra, dentro do porta-aviões “Chimera”. O Chimera funciona como um HUB onde podemos socializar com NCPs e adquirir itens com vendedores ou desafios com um oficial da S.H.I.E.L.D. Pense nele como a Casa-Branca de ou a Cidadela em Destiny. Como o jogo é desenhado para funcionar como um serviço, não faltam itens a serem coletados e equipamentos a serem comprados, seja com moeda própria do jogo ou dinheiro da vida real. Confesso que a navegação dentro do Chimera não é tão fácil e às vezes podemos nos perder.

Avengers Vendor
Tem de um tudo no Chimera. Equipamentos são pagos pela moeda do jogo.

Na Mesa de Guerra podemos selecionar missões para avançar na campanha ou missões paralelas, para garantir XP e equipamentos. Embora algumas das missões da campanha sejam somente para um jogador (a campanha pode ser jogada toda em single player), todas as missões paralelas contam com o sistema de co-op online e podem ser jogadas com amigos ou desconhecidos. Nelas podem ser utilizados qualquer dos heróis já desbloqueados e preenchidos os outros 03 lugares com outros jogadores ou companheiros controlados pela Inteligência Artificial (IA).

Após o término da campanha, sobram missões paralelas da Iniciativa Vingadores, que podem ser jogadas livremente, sozinho ou online. A maior parte das missões possuem um pequeno roteiro para justificá-la e existe um tipo de missão específico para aquisição de itens cosméticos. Ainda assim, embora o jogo nos deixe com umas 4 ou 5 skins diferentes para cada personagem ao final da campanha (o suficiente para uma boa variação), conseguir outros itens cosméticos é como tirar leite de pedra, pois o custo deles é bastante elevado.

Avengers Mesa de Guerra
Não existem muitas localidades diferentes para realizar missões.

Em relação às missões multiplayer, elas trazem consigo as características boas do combate e movimentação do personagem, mas são demasiadamente limitadas em cenários (Utah, Costa Oeste, Floresta, Escandinávia e o próprio Chimera), e atividades a serem realizadas, geralmente envolvendo derrotar todos os inimigos ou tomar um ponto de interesse.

O ponto alto é a possibilidade de jogar com amigos (obviamente) e no desafio intenso do end-game que, somado ao ótimo gameplay, resulta em boa diversão. Mas fica o aviso: atualmente é bastante repetitivo e pode enjoar rápido. No entanto, jogos-serviço tendem a se adaptar e ganhar melhorias com o tempo, então a expectativa de um bom retorno no investimento de tempo e dinheiro é razoável. Inclusive já estão prometidos novos heróis, com o Spider-Man exclusivo no PlayStation.

Avengers pass
Cartas de Desafio é o nome do “battle pass”. Custam dinheiro real oficial.

O grande vilão entra em cena!

Marvel’s Avengers tinha tudo para ser um jogo maravilhoso, daqueles dignos de altas notas no Metacritic e um dos melhores do ano. Afinal, a franquia da Marvel é provavelmente a mais bem-sucedida da história do cinema (destronando até Star Wars) e não existe um ser-humano que jogue videogames de ação que não seja público-alvo desse jogo. No entanto as falhas de Marvel’s Avengers estão no básico.

Tem alguma coisa errada com o motor gráfico do jogo. Não bastasse a aparência geral do jogo, em que tudo parece “lavado” (me lembrou V, rodando no PlayStation 3), os objetos e personagens por vezes se comportam de uma maneira estranha, quase sem peso e deslizando no cenário, ao invés de caminhar e em alguns trechos, rochas quebradas parecem ser feitas de isopor.

Embora o combate seja ótimo, a câmera do jogo faz de tudo para atrapalhar, colocando-se próxima demais dos personagens. Assim, uma luta perto de uma parede é a receita para que nada seja mostrado na tela, enquanto os personagens não estiverem em um local mais adequado – e longe da parede.

A resposta dos comandos de voo e pouso do e Thor são inconstantes e às vezes parece que a IA dos inimigos ficou em casa. Também existem trechos em que a movimentação facial do personagem resolve parar de funcionar, resultando em uma conversa de ventríloquo, com a boca fechada. Também aconteceu de a dublagem em português (excelente, por sinal), desaparecer no final do jogo e as falas voltaram a ficar todas em inglês.

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Esse efeito de movimento do Mjolnir ficou travado no personagem.

Além desses problemas estruturais nos gráficos e recursos visuais, existem inconsistências na IA dos companheiros de missão. Em Marvel’s Avengers, podemos jogar em missões cooperativas sem outras pessoas, com companheiros controlados pela IA. Acontece que o comportamento deles é errante. Por vezes eles estão agressivos demais contra os inimigos, finalizando todos sozinhos e roubando o nosso protagonismo como jogador. Em outros, a IA dos companheiros resolve te abandonar no meio da batalha e se você precisar ser revivido, não vai acontecer (mesmo se o companheiro estiver a poucos metros de distância).

Eu não tive a impressão de que Marvel’s Avengers é um jogo quebrado, mas sim um jogo entregue antes de estar pronto. Fica evidente que o produto exigia mais polimento no PlayStation 4, inclusive na performance (meu console parecia que iria decolar a qualquer minuto). Embora funcional e com bons sistemas de gameplay, é fácil notar que existe muito espaço para melhorias e muitos bugs a serem consertados, sobretudo na apresentação do jogo. Talvez seja um jogo pronto para PCs e para a próxima geração de consoles (versões para PlayStation 5 e Xbox Series X já estão anunciadas) e fazer com que tudo rode bem na geração de consoles atual seja pedir demais.

Endgame

Tal como um bolo recém saído do forno que se quebra ao desenformar, mas ainda pode ser comido e é bem gostoso, Marvel’s Avengers é um excelente game com problemas. Seus pontos fortes são a excelente campanha e a possibilidade de jogar com amigos em multiplayer cooperativo. Mas ainda há muito que ser feito na parte visual e na estrutura das missões pós-campanha, uma vez que são muito repetitivas, não apenas nos cenários, mas também nas tarefas a serem realizadas.

Avengers frame
Mesmo com problemas, a campanha de Marvel’s Avengers enche o coração de alegria.

Marvel’s Avengers possui muito potencial e consegue manter os heróis no imaginário popular e serve como um excelente produto da cultura pop, não deixando nada a desejar em relação às histórias contadas no cinema. Todavia, se na tela grande a Marvel renou absoluta, a mídia dos videogames já entregou grandes representações de super-heróis dos quadrinhos, não sendo uma tarefa fácil se igualar aos pares. Espero que a vida longa do serviço traga melhorias e ajustes no jogo para que os problemas não ofusquem ainda mais as qualidades.

Marvel’s Avengers foi desenvolvido pela Crystal Dynamics e publicado pela Square Enix para PlayStation 4, Xbox One, Google Stadia e PC. A análise do jogo foi feita em um PlayStation 4 Pro, com uma cópia digital gentilmente fornecida pela assessoria de imprensa da Square Enix.


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Tiago Matias Escobar
Metaleiro não uniformizado. Cerveja, pizza, games e viagens ocasionais.