Análise Metal: Hellsinger (PS5)

Metal: Hellsinger combina elementos de shooters, jogos musicais, bullet hell em uma mistura incrivelmente divertida, viciante e frenética.

Review Metal: Hellsinger

Existe uma expressão em inglês muito usada pela galera modernosa de start-ups, pessoas envolvidas com tecnologia em geral ou indivíduos que não conseguem terminar uma frase totalmente em português, chamada elevator pitch.

O termo significa “discurso de elevador” e o conceito é simples: Imagine que você tem um produto, serviço ou ideia que precise de dinheiro para sair do papel e, porventura, entre no mesmo elevador que um conhecido investidor, com quem nunca conseguiria marcar uma reunião. Você teria então segundos preciosos para apresentar sua proposta e cativá-lo ao ponto dele querer te ouvir com calma no futuro e, talvez, investir no seu negócio.

Se a primeira impressão é a que fica, ela precisa ser impecável.

Pensando nisso, eu adoraria ter presenciado o elevator pitch de Metal: Hellsinger que os suecos do estúdio The Outsiders apresentaram para os noruegueses da Funcom. Deve ter sido uma apresentação inacreditável de boa já que a Funcom adquiriu a desenvolvedora em junho de 2021, mais de um ano antes do lançamento do seu primeiro trabalho, o próprio Metal: Hellsinger. Isso que é vender bem o peixe — assim como o anzol, a linha e a vara.

Enigmata

Como eu não estava lá durante as negociações — e talvez até chamassem a segurança se eu estivesse, afinal: “Quem é esse cara no meio da nossa reunião de negócios?” — só posso imaginar como foi. Aliás, não quero imaginar. Farei melhor: apresentarei o meu pitch para o jogo. Exclusivamente para vocês! Preparados?

“— Metal: Hellsinger é um FPS estilo DOOM: frenético, brutal e ambientado no Inferno, como bons boomer shooter’s devem ser, só que a jogabilidade é como se fosse um Guitar Hero. Calma, não é necessário usar instrumentos de plástico vendidos separadamente. Mas é preciso dizimar as hordas infernais na batida da música.

Ela começa com uma base de bateria, e quanto mais inimigos derrotados sem perder o ritmo mais instrumentos são adicionados. Com o multiplicador no máximo entram os vocais. Nesse momento, o dano é máximo, assim como a adrenalina do jogador. Ele não quer perder a batida para a música não perder camadas. Entrando na arena do Chefe, o jogo se transforma em um bullet hell ao moldes de Returnal, só que menos punitivo.

DOOM, Guitar Hero e Returnal em um só pacote.”

Não sou um executivo de uma multinacional de games, mas se eu fosse essa seria uma proposta de arrancar as meias sem tirar os sapatos. Aceito. Onde assino?

Enigmata encontra Paz Metal: Hellsinger

Claro, talvez essa seja uma simplificação grande do que é Metal: Hellsinger. Ele não é apenas um amontoado de referências ou influências, mas sim um produto que além de se sustentar por essas misturas, também se mantem sólido pelas suas próprias qualidades. E, acima de tudo, um jogo divertido para ca$@%#*.

A história do game, apesar de parecer servir apenas como um pano de fundo para destroçar demônios, é muito bem construída e narrada por Troy Baker, que também dá voz ao seu companheiro de aventuras, Paz, o crânio que atira bolas de fogo e que ajuda a não perder a batida nas transições de arena. Quase como um metrônomo para os versados em música, mas muito mais legal.

Em Metal: Hellsinger o jogador assume o papel de Enigmata, uma cantora infernal, em uma jornada de vingança e destruição através dos oito círculos infernais na busca pela recuperação do seu dom mais precioso: sua voz, roubada pela Juíza Vermelha, a suprema governante do Inferno.

Um inferno!

Uma narrativa simples, que ganha certa profundidade nos subtextos apresentados pelos desafios secundários, chamados de Tormentos, e durante as cutscenes, animadas com artes semiestáticas, que mais parecem ter saído direto de capas de discos de Metal que os desenvolvedores, e, provavelmente, grande parcela do público do game, amam.

E, como mencionado, é preciso fazer isso no ritmo da batidas da música de cada cenário. E não é qualquer música, não! Uma seleção de canções originais criadas pelo duo Two Feathers (Elvira Björkman e Nicklas Hjertberg) em parceria com o Diretor Criativo do jogo David Goldfarb e cantadas por artistas como Mikael Stanne, da Dark Tranquillity, Alissa White-Gluz, da Arch Enemy, Randy Blythe de Lamb of God e Serj Tankian do System of a Down, entre outros. Uma verdadeira celebração ao Metal.

Inicialmente pode soar complexo tentar se mover, desviar, trocar de arma, recarregar e atirar, tudo enquanto acompanha o ritmo das músicas mas, como a prática leva à perfeição, em pouco tempo você vai estar partindo demônios ao meio como se não houvesse amanhã. E é incrivelmente satisfatório sentir que gradualmente você está ficando melhor.

Uma das facetas da Juíza Vermelha

Ajuda muito Metal: Hellsinger não ser tão punitivo quanto BPM: Bullets per Minute, por exemplo.

Em BPM não é possível realizar nenhuma dessas ações citadas fora do compasso, já aqui o jogador pode até matar todos inimigos e Chefes fora no ritmo, só que o dano é consideravelmente menor nesse caso, ou seja, todas as lutas demorarão mais tempo para acabar, o que sempre abre a possibilidade de você morrer no processo. Além disso, todos os incentivos que oferecidos por manter um multiplicador alto, como guitarras e vocais, serão perdidos.

Dessa forma, ao invés de punir seus erros o jogo recompensa os acertos. Lados diferentes de uma mesma moeda, mas que fazem toda a diferença no final das contas.

Primeira Chefe de Metal: Hellsinger

Para ajudar em sua jornada, além de Paz, o crânio, o jogador sempre estará equipado com a espada Terminus e mais duas armas à escolha, dentre elas a escopeta Perséfone, as pistolas duplas Cães, a balestra Vulcan e as armas de arremesso Corvos Infernais, uma das minhas favoritas embora não tenha certeza como classificá-las, mas elas são uma espécie de bumerangue com cabo, se é que isso faz algum sentido.

Cada uma delas tem um ataque especial super poderoso que pode ser usado quando o medidor de Fúria dela for preenchido.

As armas são desbloqueadas ao longo da campanha, e é possível revisitar fases anteriores com as que liberou em qualquer outro círculo infernal, e que tenha se adaptado melhor ao estilo, com o objetivo de melhorar suas posições na Tabela de Classificação de cada cenário.

A escopeta, por exemplo, apesar de ser uma das melhores armas do game, foi uma das que menos usei justamente porque não me acostumei a “batida” dela. Por outro lado, com as Cães e Corvos em mãos, os demônios choravam só de me ver.

Menu de armas e símbolos em Metal: Hellsinger

Além das 8 fases principais de Metal: Hellsinger recomendo muito participar dos Tormentos, os três desafios secundários de cada cenário que são liberados quando você os termina.

Esses Tormentos são arenas curtas, com desafios, dificultadores e armas predefinidos. Neles o jogador precisa, por exemplo, derrotar 25 demônios usando só a mecânica de Massacre (a finalização bem ao estilo Glory Kills presente em DOOM) em 40 segundos. Cada inimigo derrotado acrescenta até 12 segundos no tempo (e, acredite, você vai precisar de cada um desses segundos).

Ao terminar o Tormento, o jogador recebe um Símbolo como recompensa, que funciona como um bônus de melhoria passiva que pode ser equipado antes de cada cenário. Assim como no caso das armas, é possível equipar dois Símbolos por vez.

Nesse exemplo específico que expliquei, o Símbolo recebido ao concluir o desafio será o Perfeccionista, que permite um acúmulo de Fúria mais eficiente a cada acerto perfeito no ritmo, o que viabiliza o uso do especial das armas mais frequentemente se você estiver mandando bem.

Tabela de Classificação em Metal: Hellsinger

E se participar desses Tormentos é opcional em dificuldades menores, caso você se arrisque na dificuldade Besta é imprescindível que cumpra todos com sucesso para conseguir o nível III de cada Símbolo, ou não conseguirá sobreviver muito tempo nas arenas contra os inimigos elite dos últimos infernos.

E, mesmo que a recompensa seja um incentivo a mais, esses desafios criam uma variação interessante que tira o jogador da zona de conforto ao expô-lo a situações que não buscaria no curso normal da jogatina.

Novamente usando meu caso como exemplo, mesmo não tendo me adaptado bem à escopeta, nos desafios em que ela era a arma principal eu tinha que me forçar a ficar bom nela ou não conseguiria terminar a Tormenta e ganhar o Símbolo.

Vale a pena?

Metal: Hellsinger é um jogo absolutamente incrível e adorei cada segundo dele.

Quase uma capa de disco de Metal

Se gostou do que Mick Gordon fez com a trilha sonora de DOOM (2016), DOOM: Eternal (2020) e da forma como a id Software integrou essa trilha à jogabilidade desses dois games maravilhosos, diria que é basicamente obrigatório que você ao menos experimente Metal: Hellsinger.

O jogo é relativamente curto, e é possível terminar a campanha principal em umas 4 ou 5 horas, dependendo claro do nível de habilidade de cada um, entretanto, o fator replay e os desafios secundários podem aumentar esse tempo ao gosto do freguês.

Uma única coisa que me faria tirar pontos dele é que, exceto pela batalha final com a Juíza Vermelha, todas as outras lutas contra Chefes são variações do mesmo inimigo. Existe uma explicação na história para isso, mas é mais uma justificativa para uma limitação do que um motivo real para ser do jeito que é. Ainda é divertido porque os padrões de ataque de cada um são diferentes, mas poderiam ter caprichado mais para tornar esses combates únicos e memoráveis.

Metal: Hellsinger

No PlayStation 5 o game está muito fluído e não encontrei nenhum bug ou problema de performance no meu caminho para conquistar o troféu de platina dele.

Caso prefira jogar em outras plataformas, o título também foi lançado para PC através da loja da Steam e Xbox Series. E se você for assinante do Xbox Game Pass, no momento de publicação deste texto, ele está disponível sem custo adicional no serviço da Microsoft. Um excelente negócio, se você me perguntar.

A boa notícia, caso você dê uma chance para o game (e goste dele tanto quanto eu gostei) é como a história de Metal: Hellsinger termina depois de uma luta épica final acenando claramente para uma continuação.

Única coisa que sei neste momento é que mal posso esperar por um trailer anunciando exatamente isso e, pelo menos para mim, nem vão precisar de um segundo elevator pitch. Aceito. Onde assino?

Metal: Hellsinger

A análise de Metal: Hellsinger foi escrita com base em uma cópia de review gentilmente cedida pela assessoria de imprensa do game.

Papai Platina
(Pouco) conhecido como Willian. Marido, pai de três filhos maravilhosos, fã de Stephen King, filmes toscos e trophy hunter nas horas vagas. No Twitter como @papaiplatina e willianmarques na PSN.