Análise Pacer (PlayStation 4)

Pacer é um jogo de corrida e combate incrivelmente rápido com ambientação futurista e combate frenético desenvolvido pela R8 Game Ltd.

Pacer Logo Title

Dentro do nicho dos jogos de corrida, é cada vez mais comum a busca por uma aproximação fiel da realidade. Corridas de Fórmula 1 e Moto GP, Rally ou mesmo com carros do mundo real (como nas franquias Gran Turismo e Forza) tentam ao máximo reproduzir todos os detalhes de se conduzir as máquinas do mundo contemporâneo, inclusive as dificuldades técnicas enfrentadas por um piloto profissional.

Pacer vem na contramão dessa proposta. O jogo de corrida da R8 Games é um arcade clássico, frenético, com ambientação futurista e elementos de combate. Se você já viu esses elementos antes na franquia Wipeout, saiba que não é por acaso, uma vez que os desenvolvedores de Pacer fizeram parte do time daquele jogo.

Frenético

Começar Pacer sem passar pelo treinamento é um erro. As naves desafiam a gravidade e correm a quase 500 km/h (na categoria básica), parecendo ser quase impossível mantê-las na pista. Mas o treinamento coloca as coisas no lugar, fazendo com que a gente possa entender como funciona o gameplay. Um detalhe interessante, que é provavelmente uma das maiores características do jogo, é o tipo de frenagem. Como as naves são anti-gravitacionais e não tocam o solo, para frear utilizam-se de flaps, abas que se abrem e aumentam a resistência com o ar, tal como fazem os aviões. A grande sacada é que podemos controlar cada um dos flaps, do lado esquerdo ou lado direito, de forma independente, o que acaba arrastando o bico da nave pro lado correspondente. Esse recurso é essencial na hora atacar curvas fechadas sem perder segundos preciosos seguindo o traçado mais longo da pista.

Pacer Track
A ambientação futurista de Pacer é excelente.

O gameplay de Pacer é o ponto alto do jogo, pois consegue passar de forma competente a sensação de estar controlando uma nave em ultra-velocidade. Além da corrida em si, o jogo ainda acrescenta o sistema de combate como aquele dos clássicos Rock N’ Roll Racing, Biker Mice From Mars e, claro, Mario Kart, por exemplo. Power-ups ficam espalhados pela pista e dão a possibilidade de atacar os adversários que explodem em pedaços quando não possuem mais escudo e a “saúde” da nave chega ao final. Itens que recuperam o escudo das naves e aceleradores também fazem parte dos itens dispostos diretamente na pista, bastando passar por eles para que sejam ativados.

As pistas possuem desenhos variados, desde traçados simples com curvas desafiadoras, até trajetos na vertical ou com quedas bruscas, que mais parecem montanhas-russas e proporcionam momentos cheios de tensão enquanto buscamos alcançar o próximo adversário para atingi-lo com um míssil ou metralhadoras, ao mesmo tempo em que devemos cuidar para que nós não sejamos destruídos. Essa dinâmica, aliada ao ritmo acelerado, fazem o gameplay de Pacer ser tão redondo e polido quanto 8, por exemplo.

Pacer damage
Pacer consegue passar uma sensação visual do dano sofrido nos combates.

Também preciso dizer que Pacer conta com um modo multiplayer online, mas em todas as tentativas, não encontrei sessões abertas para ingressar e quando eu mesmo criei um lobby para que outros jogadores entrassem, não obtive sucesso. Uma pena.

A cada corrida, 10 naves se enfrentam, cada uma pertencente a uma equipe distinta, de países diferentes e que ostentam cores próprias. Em uma camada extremamente superficial, existe um fundo narrativo envolvendo cada uma das equipes, o que é apresentado no momento em que selecionamos o modo de jogo “Set One”. Nele uma das 10 equipes apresenta uma proposta de contrato e, se aceitarmos, devemos completar um conjunto de desafios com algumas corridas com regras diferentes.

Pacer track 2
As pistas parecem montanhas-russas!

Nesses modos de jogo, temos, além da corrida clássica, eliminação (em que o último colocado é destruído após a contagem de um timer), destruição (ganha quem eliminar mais adversários) e uma espécie de Battle Royale, chamado “Storm”, em que uma bolha de energia vai se fechando na pista e devemos permanecer dentro da área segura. Também existem modos de corrida livre e ataque de tempo para aqueles que querem apenas dominar o trajeto de cada pista. Podemos modificar as naves utilizando até 05 modelos diferentes, todos com design muito arrojado. Além da escolha do tipo de nave e da cor, podemos alterar detalhes de cada nave, como motor, freios, aerofólios, suspensão e etc. Mas é nesse ponto que o ritmo frenético de Pacer começa a diminuir.

Perdido nas opções

Se o gameplay de Pacer é muito preciso e divertido, não dá pra dizer o mesmo de outros aspectos do jogo, para os quais a mesma qualidade não se estende.

São muitas as opções de customização das naves. Mas não é fácil personalizá-las.

Um dos grandes problemas que encontrei no jogo foi a dificuldade de localizar e acessar as várias opções apresentadas. Por exemplo, Pacer não possui uma campanha narrativa propriamente dita, mas uma série de torneios curtos, em categorias de velocidade distintas. Você que está acostumado com jogos de corrida pensaria: basta eu ganhar todas as corridas do modo “fácil” (chamado de F3000) para desbloquear o próximo nível, certo? Errado. Mesmo terminando as corridas da F3000 eu não consegui desbloquear a próxima categoria.

O mesmo ocorre com os eventos de cada equipe. Ao receber um convite para ingressar em um dos 10 times existentes no jogo, somos levados a uma série de corridas em um evento próprio daquela equipe, sendo bastante simples de se entender: completar os desafios e desbloquear uma nova corrida, até terminar o evento todo. Funciona como deveria, mas ao término do evento, não existe uma opção clara para selecionar uma nova equipe dentre as existentes para tentar novos desafios. O que existe é um novo convite, de uma ou mais equipes, o que parece ser aleatório. Nem mesmo existe uma representação visual dessas equipes no momento da escolha, somente um texto descritivo, o que não ajuda na experiência.

Pacer Menus
Navegar pelos menus para escolher modalidade de corrida é o “calcanhar de Aquiles” de Pacer.

Igual problema acontece com a seleção de itens de personalização das naves, o que somente consegui fazer funcionar jogando em modo livre, sem avançar na campanha do jogo, pois escolhendo a modalidade F3000, mesmo com a opção de usar a garagem para trocar itens visuais, nada é aplicado à nave existente e não fica claro se isso se trata de alguma espécie de “cenário”, no qual devemos obrigatoriamente passar o desafio com aquele veículo proposto. A outra opção seria ingressar no modo “Set One”, mas esse é exclusivo para eventos com as equipes, não havendo a possibilidade de trocar as cores das naves.

Fiquei confuso? Fiquei sim, pois a própria organização de menus para personalização de aparência, performance e armamentos não ajuda, existindo um tutorial exclusivo para isso. No lugar de escolhermos entre as opções existentes, de forma simples, desbloqueando-as com os créditos ganhos nas corridas, o jogo pede que sejam criadas “configurações” (ou presets), deixando tudo pré-estabelecido para a seleção no momento da corrida. Funcionou a contento nos modos F3000 e “Set One”, mas não importava quais seleções fossem feitas em relação à aparência e escolha das naves, nenhuma configuração era salva ou aplicada para as partidas.

Gráficos e som

Pelo menos a confusão visual de Pacer fica restrita à interface de usuário e menus antes das corridas. Durante as provas temos gráficos belíssimos e uma taxa de quadros apurada para passar a sensação de velocidade extrema. Os cenários são muito bonitos, com elementos visuais que remetem aos países onde estão localizadas as pistas. Algumas são mais detalhadas que as outras, mas todas constroem de forma competente a atmosfera futurista necessária para entregar a proposta do jogo. Curiosamente, a direção artística passa uma sensação de “futurismo retrô”, aquele visual do fim dos anos 1990, em que o CD era o futuro. Talvez por buscar emular a atmosfera do original, lançado para o primeiro PlayStaion, lá em 1995, todavia, sem as cores vibrantes da franquia falecida, Pacer traz elementos visuais, sobretudo nas naves, que dão um toque de desgaste e uma leve decadência.

Pacer gameplay
O ponto forte de Pacer é o gameplay.

Os efeitos visuais em tiros e explosões não são extraordinários, afinal estamos falando de um jogo indie, mas não prejudicam a experiência do gameplay na corrida, que volto a repetir, é muito bom. Já os efeitos sonoros são um poderiam receber um pouco mais de carinho, bem como a mixagem de sons e efeitos poderia ser melhor. Pacer conta com uma trilha sonora com músicas eletrônicas que, olha só, parecem ter saído diretamente dos anos 1990 e tentam criar uma ambientação para o jogo, infelizmente, sem corresponder à intensidade de elementos visuais que estão à nossa frente. Também não prejudicam o núcleo de mecânicas do jogo, mas parece um pouco fora de contexto, pelo menos na minha singela opinião.

Vale a pena?

O jogar Pacer, fica muito claro o objetivo da R8 Games em entregar uma experiência de corridas com velocidades extremas em ambientação futurista, exatamente como nas franquias e F-Zero, por exemplo e a proposta é entregue com competência louvável. As corridas são rápidas e frenéticas por si só e o combate entre as naves é um ingrediente que coloca o jogo em um outro patamar, sendo divertido e desafiador na medida certa, tanto quanto 8, por exemplo. As ressalvas em relação aos efeitos sonoros do jogo não estragam a experiência e me parecem ser intrínseco à natureza indie do jogo, em que a maior parte dos recursos do desenvolvimento foi alocada no gameplay. O ponto realmente negativo do jogo fica com a organização dos menus e acesso às opções de personalização e a efetivação das escolhas nas partidas, pois é sempre um mistério se vai funcionar ou não. Creio que alterações de interface podem ser realizadas em atualizações futuras. Se você gosta de corridas arcade, com combate ou é “orfão” das franquias ou , tenho certeza que Pacer irá te agradar.

Pacer foi desenvolvido e publicado pela R8 Games Ltd e está disponível nas plataformas PlayStation 4, One e PC (Steam).

A análise foi feita em um PlayStation4 Pro, com base em uma cópia digital, gentilmente fornecida pela assessoria de imprensa do jogo.


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Tiago Matias Escobar
Metaleiro não uniformizado. Cerveja, pizza, games e viagens ocasionais.