Análise Road 96: Mile 0 (PlayStation 5)

Road 96: Mile 0 mostra os eventos de escalada de totalitarismo com muita energia juvenil e incertezas em uma aventura musical.

Tela de título de Road 96 Mile 0 mostrando os protagonistas sentados no meio da rua

Road 96 foi uma grande surpresa. O jogo narrativo da Entertainment utilizava-se desse formato para contar a não de um personagem, mas do contexto de um grupo de pessoas em um lugar, Petria. Quanto mais avançavamos no jogo, mais conhecíamos as nuances que permeavam o conflito político do país que estava à beira de eleições decisivas. Agora estamos de volta para entender melhor o que aconteceu antes daquela .

Uma nova perspectiva

Logo de cara já notamos uma primeira grande mudança em : Mile 0 que é a existência de protagonistas, ausentes no jogo anterior. Aqui seguimos os passos dos amigos Kaito e Zoe, ele filho de um simples trabalhador e ela, filha do Ministro do Petróleo de Petria. Se você jogou Road 96, vai se lembrar de Zoe, uma das pessoas que atravessam o destino de alguns viajantes do jogo original. Além de Zoe, outros personagens também retornam como o John, o caminhoneiro, Sonya Sanchez, a âncora do telejornal e outros.

Zoe e Kaito estão de costas um para o outro, com os braços cruzados.
Zoe e Kaito são os protagonistas de Road 96: Mile 0.

A mudança de perspectiva impacta muito na estrutura do jogo, que acaba contando uma história menos fragmentada, buscando um melhor desenvolvimento da personalidade dos protagonistas Zoe e Kaito. No entanto, a estruturação da narrativa em torno de protagonistas preestabelecidos acaba por limitar as nuances que podemos nos valer para a construção da nossa própria em Petria.

Por outro lado, a jornada da Zoe e Kaito é interessante e a interação dos personagens faz com que descobertas sejam feitas acerca do mundo e da realidade que os cerca, pois existe um abismo social entre um e outro. É nessa dicotomia que conflitos são apresentados e resolvidos e as consequências resultarão no cenário de Road 96.

aprimorada

Mile 0 também acrescenta outras camadas de gameplay, além da interatividade limitada que vemos no jogo anterior. Como em Road 96, Mile 0 retoma a jogabilidade simples de “apontar e clicar” em objetos e personagens à vista, o que pode acionar um diálogo ou uma interação. No cenário, existem itens escondidos e algumas interações marcam decisões na vida dos personagens, como rasgar um pôster pro-governo, por exemplo.

Mas é na conversa com outros personagens que a história avança e também moldaremos as decisões de Zoe e Kaito, que terão que escolher entre deixar para trás a vida que levam até então ou manter as coisas como estão.

 

Kaito está deitado num sofá olhando para uma fotografia. Seu skate está em pé, apoiado no sofá ao lado de um toca-fitas.
Kaito precisa lidar com a perda de uma amiga.

Apesar da trama política que se desenvolve ao fundo, existem momentos de descontração com jogos e atividades lúdicas, que servem para aliviar um pouco o peso de ter que tomar decisões importantes pelos personagens.

A grande mudança aparece na forma de trechos musicais, geralmente envolvendo alguma fuga dos protagonistas depois de praticar algum tipo de perturbação da ordem (são adolescentes, afinal). Kaito corre com seu skate enquanto Zoe faz seu caminho sobre as rodas de patins. Alternando entre os personagens, esses segmentos do jogo contam com trilha sonora vibrante (inclusive com músicas licenciadas de bandas reais) e neles devemos desviar dos obstáculos que aparecem no caminho.

É algo simples, mas bem implementado para conseguir traduzir o espírito juvenil dos protagonistas, sobretudo com a trilha sonora e os temas visuais apresentados. Os trechos musicais também possuem um elemento de replay, pois ao final somos avaliados e podemos repeti-los até atingir a maior pontuação possível.

O protagonista Kaito anda de skate em uma pista nas nuvens.
Trechos de ação musical permeiam o jogo.

Por fora, bela viola

Mile 0 repete o estilo artístico de Road 96, utilizando-se do aspecto cartunesco para apresentar o mundo e os personagens. A ambientação com cores vibrantes se opõe ao contexto político de Petria e à profundidade dos dilemas enfrentados pelos personagens. Kaito por exemplo, acaba de perder sua melhor amiga, vítima de um câncer terminal e se vê sem muitas opões a não ser lutar contra um regime totalitarista que se avizinha. Tudo parece exageradamente colorido, talvez como em um sonho ou como uma ficção distópica mesmo, o que cria essa contradição proposital entre o visual e a narrativa e que às vezes pode nos tirar do clima.

A imagem mostra um palco sendo montado em frente a um arco triunfal
Road 96: Mile 0 possui belos gráficos no 5

O destaque fica com a trilha sonora que cumpre muito bem o papel de criar a sensação de ser adolescente, com toques de rebeldia e uma urgência própria de quem ainda está descobrindo como o mundo funciona. Outro detalhe importante de se mencionar é que o jogo conta com textos totalmente em português do Brasil, facilitando muito a compreensão da história contada.

Conclusão

Road 96: Mile 0 repete a fórmula do jogo anterior, acrescentando novos elementos que agregam à jogabilidade, sem descaracterizar a proposta de jogo de aventura narrativa. Os políticos ainda estão lá, assim como a dicotomia entre liberdade e opressão, levados pela lógica binária própria dos jovens. Momentos de tensão são criados, colocando os personagens em situações delicadas a fim de melhor construir o que é mostrado em Road 96. Um jogo simples, mas que cumpre a sua proposta de fazer pensar enquanto nos diverte.

Road 96: Mile 0 foi desenvolvido pela DigxArt Entertainment e publicado pela Ravenscourt em abril/2023 e está disponível para PC, PlayStation 4, PlayStation 5, Nintendo Switch, Xbox One e /S.

A análise foi feita com base em uma cópia digital para PlayStation 5 gentilmente fornecida pela assessoria de imprensa do jogo.

Tiago Matias Escobar
Metaleiro não uniformizado. Cerveja, pizza, games e viagens ocasionais.