Análise Spiritfarer (PS4)

Spiritfarer é um jogo de simulação e gerenciamento que toca em temas como morte e luto de uma forma muito delicada e poderosa através de uma jogabilidade simples e gráficos lindíssimos.

Lidar com a morte é uma condição da natureza humana e inevitavelmente em algum momento de nossas vidas passaremos por alguma perda, seja o falecimento de um conhecido, amigo ou de um ente querido teremos que lidar com esse luto.

Pensando nisso os desenvolvedores de Spiritfarer criaram um game em que o tema principal é a travessia por esse momento, como aceitar que a vida é mais passageira do que pensamos e como recordar os bons momentos pode ajudar a aliviar esse peso.

Contudo Spiritfarer não é um jogo triste, muito pelo contrário, ele consegue ser extremamente lúdico e bonito, principalmente por conta da sua estética e da escolha das cores dos cenários e personagens.

Ele tem uma vivacidade incrível, mesmo se tratando de um título sobre a morte.

Spiritfarer é lindíssimo

Desenvolvido e publicado pelo estúdio Thunder Lotus Games, Spirtifarer foi lançado em 18 de agosto de 2020 para PlayStation 4, Nintendo Switch, Xbox One , Google Stadia e PC, estando nesta última plataforma disponível em diferentes lojas como Steam, Epic Games Store e GOG.

Em uma camada superficial, Spiritfarer é um jogo de gerenciamento de recursos aos moldes de Stardew Valley, Harvest Moon ou Graveyard Keeper e nele o jogador assume o papel de Stella que foi incumbida da missão de substituir Caronte, o barqueiro que na mitologia grega atravessa os rios Estige e Aqueronte ajudando os recém-falecidos a deixar em definitivo o mundo dos vivos.

Nessa nova função, acompanhada de seu gato Daffodil, Stella precisa garantir que a travessia das almas seja o mais confortável possível e dessa forma Spiritfarer subverte a forma de lidar com a morte nos videogames: aqui não é preciso derrotar ou matar inimigos para progredir, mas de uma forma ou de outra a vida desses personagens terminará pelas suas mãos.

Caronte aposentou e agora você é a nova barqueira do além

Construa e eles virão

O trabalho de Stella é atender aos últimos pedidos e também aos caprichos dos passageiros que encontrará em seu caminho, desde os mais simples como refeições específicas até a construção de acomodações que atendam melhor as necessidades de cada um, normalmente um espelho do que possuíam quando eram vivos, e ao final acompanhar cada um até Everdoor, o portão para o descanso final.

Para ajudar na navegação Stella conta com o auxílio da Everlight, um item mágico que assume as formas necessárias no momento, podendo se tornar desde uma picareta para mineração, uma vara de pescar ou um regador para molhar as plantas na Horta construída no seu barco.

Falando nisso, a parte de construção e gerenciamento é bem completa e não fica devendo em nada para os titãs do gênero e é tudo muito intuitivo.

Construir e personalizar o barco é um dentre muitos pontos altos do game

Por exemplo, o jogador precisa cortar madeira para construir estruturas, mas enquanto para alguns prédios é possível usar as toras em seu estado bruto para outros é necessário o tratamento dessas em tábuas e para isso é preciso construir uma Serraria, porém não é só isso: diferentes tipos de madeira são necessários para cada tipo de construção e para coletá-las é preciso navegar e explorar as diferentes regiões do mapa e encontrar os recursos corretos.

E é interessante o quanto Spiritfarer se apoia em detalhes para construir um sistema de gerenciamento complexo e didático ao mesmo tempo.

Ficando ainda com o exemplo do processamento de madeiras é nas pequenas minucias em que é possível ver a engenhosidade de Spiritfarer.

Após transformar as toras em tábuas é gerado um subproduto sem utilidade inicial aparente: serragem, e nas primeiras duas horas vendia toda essa para um Guaxinim, dono de várias lojas espalhadas pelo mapa, a preço de banana já que não tinha o que fazer com ela.

Os mini games são todos simples e intuitivos

Entretanto ao construir uma Forja para processar minerais percebi que para alimentar o fogo precisaria de carvão, e apesar de ter alguns que consegui em uma mina logo no início, em um determinado ponto esse carvão acabou e meu barco estava longe do local em que sabia que poderia extrair mais e aí eu pensei: “Não é possível que toda essa serragem sirva só para venda, ela deve ter outra função”.

Bingo!

Ao colocar a serragem no forno da cozinha da minha embarcação depois de alguns minutos eu tinha a minha disposição carvão praticamente infinito e agora poderia transformar todas as minhas rochas em barras de metais diferentes.

É um detalhe muito simples, principalmente para quem está acostumado com jogos desse estilo, mas a sensação de “descobrir” essa transformação por mim mesmo, sem o game ter que me dizer exatamente o que fazer foi um dos muito momentos em que admirei a sutileza das mecânicas de Spiritfarer.

Visitar terra firma para coleta de recursos é fundamental e visualmente deslumbrante

O mapa do game é relativamente grande, mas existem áreas que não serão acessíveis em um primeiro momento visto que é preciso melhorar o navio com upgrades para navegar através de áreas congeladas ou com neblina, por exemplo, e mesmo Stella adquirirá melhorias que permitirão ela realizar certos mini games de plataforma e alcançar lugares até então inacessíveis.

Além das já mencionadas Forja e Serraria existem diversas outras construções que permitirão Stella assegurar o pedido dos seus passageiros como um Pomar, Currais para vacas e ovelhas, Hortas, um Moinho de Vento, um Tear, um Galinheiro e muito mais, e obviamente as casas provisórias dos personagens que são um destaque a parte e cheias de personalidade quando decoradas.

E algo que Spiritfarer tem de sobra é justamente personalidade, desde sua trilha sonora aconchegante passando por seus gráficos e animações maravilhosos, nada no game é exagerado ou sem propósito, e ao menos para mim tanto a parte de gerenciamento quanto a artística não tem nenhum defeito.

Infelizmente atualmente na data de publicação deste review Spiritfarer tem um único defeito para quem for jogar no Nintendo Switch e no PlayStation 4: o game não está legendado no nosso idioma nestas plataformas. Essa tradução será disponibilizada em breve segundo a assessoria de imprensa do jogo e assim que estiver disponível essa informação será atualizada aqui.

Update 02/09/2020 – As legendas em Português para o Nintendo Switch foram liberadas no patch 1.2.

Update 10/09/2020 – As legendas em Português para o PlayStation 4 foram liberadas no patch 1.2.

Diversas plataformas só podem ser acessadas quanto Stella desbloqueia novas habilidades

Spiritfarer vai mexer com você

Quando mencionei no início desse texto que ele é um gerenciador em uma camada superficial é porque apesar de a jogabilidade girar em volta da coleta e processamento de recursos, é na história que Spiritfarer brilha e alcança um nível de envolvimento potencial diferente dos demais títulos do gênero.

A narrativa e interação com cada personagem é única, cada um tem as suas próprias qualidades, defeitos, humor, medos, frustrações, arrependimentos, etc., e é impossível não se afeiçoar a eles em diferentes níveis e apesar de cada espírito assumir a forma antropomórfica de um animal, eles estão entre os personagens mais humanos que já vi em um game.

Seja a história de um casal lidando com infidelidade, uma senhora batalhando contra o Alzheimer, dois irmãos mafiosos que intimidam os outros passageiros ou uma criança que vê as coisas de forma pura, cada uma desses deixará uma marca única no jogador e cada um poderá se identificar mais ou menos com as atitudes de um ou outro.

E foi na história de Gwen, a primeira passageira que você encontra, que Spiritfarer me derrubou. Nenhum personagem entrega sua história logo de cara, mas assim que você começa a completar as suas diversas missões e pedidos eles vão entregando pequenos diálogos que vão preenchendo o quebra-cabeças de suas vidas ao jogador.

O adeus final a Gwen (abraçar é um mecânica importante em Spiritfarer)

No caso de Gwen, o seu problema quando viva era a relação com o pai e dessa forma não tive como não me identificar já que passei anos brigado com o meu.

Meus pais se separaram quando eu era criança e meu pai constituiu uma nova família. Eu não entendia e não aceitava, me sentia revoltado e parecia que eu não tinha mais importância para ele. Ele era meu herói e de uma hora para outra se tornou uma pessoa que só me deixava mal a cada interação.

Com o passar dos anos comecei a entender que os problemas do meu pai vinham da forma como ele cresceu, sem ter o próprio pai e abandonado pela mãe, e como ele também teve que lidar com rejeição muito novo. Quando eu comecei a entender isso o sentimento de raiva que tinha foi diminuindo e finalmente cheguei a conclusão que no final das contas ele não havia me abandonado, ele só estava buscando uma forma de ser feliz, mesmo que não fosse com a minha mãe.

Apesar de ter alcançado esse entendimento e deixado muita coisa para trás, alguma mágoa ainda existia lá no fundo e por conta das nossas vidas em cidades diferentes eu não tinha muito contato com ele. Após o nascimento da minha primeira filha nós nos aproximamos muito mais, mas de repente quando ela ainda era bebê meu pai faleceu subitamente.

Os passageiros assumem a forma de animais que refletem a sua personalidade em vida

E assim não tive a oportunidade de conhecer ele de verdade. Quando criança ele era tudo para mim, era o super-homem, o modelo e depois não era nada; durante a adolescência enquanto crescia e buscava meu próprio lugar no mundo, dava meu primeiro beijo, tinha minhas primeiras decepções ele não estava lá comigo e quando finalmente me tornei um adulto e pude fazer as pazes com ele não havia mais tempo, ele se foi.

Eu nunca soube a visão dele sobre as coisas, não sabia o seu ideal político (se é que ele tinha um), não sabia se sentia raiva de alguém, se tinha medo de alguma coisa, ou o que deixava ele realmente feliz.

Spiritfarer não me transformou porque eu já tinha chegado nessas conclusões sobre perda e luto anteriormente, mas ele me fez pensar no meu pai de uma forma que fazia algum tempo que eu não pensava.

É possível (e recomendável) criar diversos animais no seu navio

Mas Spiritfarer me mostrou que mesmo um jogo de videogame pode conter uma mensagem tão universal sobre como é importante perdoar e valorizar aqueles que você ama já que nem sempre haverá tempo para dizer adeus quando a hora chegar.

Aqui você terá todo o tempo do mundo para se despedir de todos os personagens que se afeiçoou ao longo do gameplay já que não é possível falhar em nenhuma missão do jogo, e espero que isso faça a maioria de vocês refletir sobre a própria vida de certa forma.

Despedidas não vão ser fáceis da primeira vez e nem da última, mas, pelo menos, você tem essa oportunidade aqui.

A análise de Spiritfarer foi escrita com base em uma cópia de PlayStation 4 gentilmente cedida pela assessoria de imprensa do jogo.


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Papai Platina
Trophy hunter e pai de 3 filhos maravilhosos.