Análise The Ascent (PS4 e PS5)

Com ambientação cyberpunk impecável, combate visceral e um design de som fenomenal, The Ascent finalmente é lançado para PlayStation.

Review The Ascent

“Ladrão que trabalhava para outros ladrões, mais ricos, empregadores que forneciam o software exótico necessário para penetrar as muralhas brilhantes de sistemas corporativos, abrindo janelas para fartos campos de dados.”

Do livro Neuromancer, de William Gibson.

The Ascent não é apenas mais um game com temática cyberpunk, ele é uma maravilha cybepunk formatada em um jogo.

Agora que já bombardeei você, caro leitor, com a primeira frase de efeito desse review, posso explicar porque você precisa jogar essa belezinha. Antes de mais nada, The Ascent não é perfeito, ele tem defeitos — que podem ser mais graves para uns e nem tanto para outros — mas, na minha opinião, ele é um dos melhores games com essa temática que pude experimentar recentemente.

Inicialmente lançado para e PC em julho de 2021, o game, desenvolvido pela Giant e publicado pela , chegou no finalzinho de março de 2022 para a família de consoles PlayStation.

Modo foto The Ascent

Nós aqui do Conversa jogamos as duas versões, o Nando, um dos nosso redatores especialista em Xbox, jogou quando ele estava disponível no gamepass no ano passado, e agora tive a oportunidade de conferir o que os desenvolvedores trouxeram de novidade para essa versão, como um suporte de áudio fenomenal, que utiliza os recursos embutidos do controle dualsense do PS5, e que contribuem para aumentar a imersão nesse mundo caótico de néon e sangue.

Parafraseando a experiência do Nando quando jogou o título no ano passado:

“A primeira coisa que impressiona quando você começa sua aventura é a beleza técnica do jogo. Os efeitos das luzes e partículas são absolutamente magníficos. A cidade é repleta de vida com uma bagunça de NPCs, veículos voando por todos os lados e uma direção artística fantástica, que mostra um capricho fantástico.”

Fica claro pela minha introdução, e agora por este depoimento dele, que nós dois gostamos bastante de The Ascent, e, coincidentemente, nossas críticas são bem parecidas também. Mas, entrarei em detalhes sobre isso no decorrer do texto.

Chefes The Ascent

A história se passa na cidade futurística de Veles, um aglomerado massivo, superpovoado e desordenado de distritos construídos em camadas, que são controlados econômica e tecnologicamente com mão de ferro pelo Grupo Ascent. Como em toda boa história cyberpunk, o dilema “alta tecnologia e baixa qualidade de vida” é a representação predominante de como é viver em Veles.

A cidade é um reduto onde diversas facções, raças alienígenas, humanos, inteligências artificiais e outras criaturas convivem, e tentam sobreviver, custe o que custar.

O seu personagem é um exemplo disso, para ascender e residir em Veles, a maioria dos cidadãos vendem sua força de trabalho em um sistema de semi-escravidão. A maioria apenas sobrevive, um dia após o outro, em Veles. O seu contrato só acaba quando você morrer ou quando conseguir pagar sua dívida, o que é virtualmente impossível dentro da estrutura social imposta por essa corporação intocável.

Contudo, um ataque ao Grupo Ascent desliga a inteligência artificial responsável pelo controle econômico da cidade, o que cria um caos e uma disputa entre os diversos grupos criminosos, militares e dissidentes, que enxergam nisso a oportunidade de assumir esse vácuo de poder. E é nesse momento que seu personagem entra na história. Atuando como mercenário a serviço de uma dessas facções, cabe a você descobrir o responsável pelo ataque e restaurar os sistemas que controlam a cidade. Simples. Mas nada é o que parece em Veles.

Spider bots

The Ascent é um RPG de ação construído em visão isométrica, aos moldes de Diablo, e com combate derivado do gênero twin-stick shooter. Classifico como derivado, porque ele foi além do que normalmente vemos em jogos do estilo, agregando diversos elementos, como um sistema de cobertura, similar ao popularizado por jogos como Gears of War, e a enfase na utilização de módulos que modificam o ritmo e o tipo do combate.

A variedade desses aprimoramentos impressiona, e apesar de ter os meus queridinhos (sem eles algumas partes seriam infernalmente difíceis), você pode testar múltiplas combinações que se adaptem melhor ao seu gosto. Isso proporciona que cada jogador monte sua própria build e tenha uma experiência diferente. Dentre meus favoritos estavam um soco hidráulico super poderoso, que dizima inimigos comuns em uma linha reta, drones aranha que perseguem e explodem ao se fixar aos alvos, e tentáculos que imobilizam e causam danos durante um período de tempo. E já deixo uma dica importante: experimentar é a chave do sucesso.

O jogador também pode equipar um item de suporte, que varia desde os mais simples como granadas de gelo, de fragmentação, drones de choque até os mais elaborados, como o meu preferido: um mecha equipado com uma metralhadora maior que meu personagem de carne, osso e implantes cibernéticos.

Mecha em The Ascent

Além desses sistemas, é possível gastar os pontos obtidos nas missões para melhorar suas habilidades como sinais vitais, taxa de acerto crítico, evasão, equilíbrio, entre outras. Essas habilidades estão totalmente integradas aos aprimoramentos citados acima e às armaduras, então, por exemplo, ao aumentar a habilidade manuseio de armas, você melhora o atributo sistema motor, que por consequência aumenta o dano do módulo soco hidráulico.

Logo, qualquer armadura que acrescente pontos ao sistema motor acrescenta também poder a esse módulo. Pode parecer complicado a primeira vista, de certa forma é um pouco mesmo. Mas é bom se acostumar, sem entender esses sistemas o jogo é fica exponencialmente mais difícil em algumas missões.

Entretanto, com o tempo e experiência vai ser mais fácil descobrir quais habilidades priorizar para maximizar o dano dos power-ups escolhidos. Por exemplo, não adianta investir em equilíbrio pensando em tirar o máximo de potência dos drones aranha, já pontos gastos em sentido tático ou taxa de acerto crítico vão transformar eles em pequenas máquinas de carnificina.

Sistema de cobertura

Essa parte RPG de The Ascent é muito bem feita, mas o game falha ao não explicar isso de uma forma mais didática em seus menus.

E por falar em menus, a forma como foram pensados é a minha maior crítica ao jogo. É tudo muito confuso nas primeiras horas de jogatina e, definitivamente, não o título não tem uma interface de usuário amigável.

Aprender a usar o que ele tinha para oferecer de bom dependeu mais do meu esforço em descobrir esses pequenos detalhes, e tenho certeza que essa é uma barreira que muitos não vão derrubar.

E, apesar de entender que a estrutura e apresentação deles tem a ver com a proposta da cyberpunk, entender não significa gostar, e, com certeza, eu não gostei.

Menus The Ascent

Outro ponto que me faria tirar pontos de The Ascent é a forma como a história é apresentada.

Apesar de existirem momentos expositivos, com cutscenes muito bem dubladas (em inglês, legendadas em português), partes da narrativa são apresentadas através de ligações do seu contratante ou de qualquer NPC de alguma missão secundária, e é muito difícil prestar atenção nos diálogos no canto superior da tela quando você está cercado de inimigos ou explorando uma região nova. E o texto pequeno transforma essa tarefa em algo ainda mais penoso.

Mas, com exceção desses problemas de formato, a história é realmente muito boa (apesar do final manjado), e como complemento, caso você queira entrar de cabeça nesse ecossistema, existe um códex completo explicando cada personagem, facção, local, e outras coisas, surpreendentemente bom.

E se esses dois problemas podem incomodar bastante algumas pessoas, pelo menos para mim eles não fazem frente a tudo que amei no jogo. Nem de longe.

Cutscene The Ascent

O combate de The Ascent é um dos mais satisfatórios dentro de um twin-stick shooter que já joguei, e ele agora está ao lado dos meus preferidos do gênero, como Dead Nation, Neurovoider e Ruiner.

A sensação de atirar é incrível, já que é possível sentir o peso diferente e a diferença de cada arma, desde as mais básicas, como rifles, metralhadoras, espingardas até armas de energia, miniguns e armas especiais que lançam discos de serra, por exemplo. Vale notar que os inimigos são susceptíveis a danos diferentes, então variar as armas, entender em qual situação utilizar cada uma delas, e melhorá-las é vital.

E tudo isso é potencializado pelo som e vibração especialmente desenhada para usar as funções do controle dualsense, o que deixa a experiência ainda mais imersiva e incrível.

Ambientação The Ascent

Por falar em imersão, o nível de detalhe colocado nos cenários impressiona — e isso fica mais evidente no modo foto — contudo, o mais incrível é saber que esse é um jogo indie desenvolvido por um estúdio com apenas 11 funcionários. Cada cenário novo me deixava de queixo caído com o que conseguiram alcançar visualmente.

Todavia, de nada adiantaria um visual estonteante se ele não fosse acompanhado de efeitos sonoros bem implementados. E a boa notícia é que o design de som também é impecável, e faz muito jogo AAA ficar no chinelo.

E se os onze guerreiros da Giant foram os mestres do visual, a parte sonora foi terceirizada e ficou por conta do time especialista em som da empresa Sweet Justice. Talvez você não os conheça por nome, mas já deve ter ouvido falar de alguns jogos pequenos com os quais eles colaboraram nos últimos anos, dentre eles: Cuphead, Demon’s Souls, Ratchet and Clank: A Rift Apart, Spider-Man: Miles Morales e , só para citar alguns. Precisa dizer mais alguma coisa?

Cenários incríveis em The Ascent

The Ascent pode ser jogado em co-op com até três amigos, mas, infelizmente, essa parte não consegui testar em profundidade para este review. O game tem alguns picos de dificuldade, principalmente nas missões finais, que parecem ter sido pensadas para serem jogadas por mais de uma pessoa, mas com o equipamento certo é perfeitamente possível terminar a campanha solo.

Em resumo, The Ascent é um excelente exemplo de uma história e ambientação cyberpunk muito bem estruturada, coroada por um combate extremamente satisfatório e intenso, e, mesmo com alguns pequenos problemas de interface e menus, caso você seja fã de twin-stick shooters isométricos, esse é um que você não deve deixar passar em branco de jeito nenhum, independente da plataforma.

“A menos que você tenha um medo mórbido de morrer.”

Do livro Neuromancer, de William Gibson.

Platina

A análise de The Ascent foi escrita com base em uma cópia de review gentilmente cedida pela assessoria de imprensa do game. Também disponível para One, e computadores.

Papai Platina
(Pouco) conhecido como Willian. Marido, pai de três filhos maravilhosos, fã de Stephen King, filmes toscos e trophy hunter nas horas vagas. No Twitter como @papaiplatina e willianmarques na PSN.