8 importantes exemplos de diversidade no mundo dos games

Em meio a tantos preconceitos, vemos cada vez mais as desenvolvedoras usando a arte dos games para contar histórias e introduzir personagens com maior diversidade, seja étnica, sexual ou cultural.

Pode parecer absurdo, mas a cada ano, por mais que o tema tenha tomado conta de diversas pautas nas mais diversificadas mídias, ainda vemos muita gente com pensamentos atrasados e que não equalizam com o momento em que vivemos, onde cada vez mais gênero, sexo, cultura e religião não devem ser parâmetro para julgar ou excluir ninguém.

No mundo dos games, uma das mídias de maior impacto e lucratividade da atualidade, por mais que os gráficos, a história e a tecnologia por trás do título tenha evoluído, ainda existe muito a ser feito quando o assunto é diversidade e .

Reuni alguns importantes exemplos de diversidade no mundo dos games para mostrar o quanto o assunto já está entre nós.

Evie Frye em Assassin’s Creed: Syndicate

A Ubisoft já havia nos apresentado a uma personagem feminina e negra jogável em Assassin’s Creed III: Liberation com Aveline De Grandpre, mas por se tratar de uma DLC, o peso da personagem para a história, além do alcance do conteúdo, uma vez que este deveria ser adquirido a parte, não foi exatamente impactante para a franquia.

Porém, em Assassin’s Creed: Syndicate, tivemos pela primeira vez uma personagem feminina jogável do início ao fim do jogo. Evie Frye é par com seu irmão Jacob e personagem principal de Syndicate, lutando no mundo do crime organizado da Era Vitoriana numa Londres de 1868 durante a Revolução Industrial, para restabelecer a ordem controlada pelos Templários.

Evie, apesar de gêmea de Jacob, era considerada a irmã mais velha pois nasceu 4 minutos antes. Devido a morte de sua mãe, foi criada pela avó e trilhou no caminho dos assassinos graças aos treinamentos e ensinamentos recebidos e seu pai, Ethan Frye.

É possível ainda jogar com Evie na DLC “The Dreadful Crimes”, onde devemos investigar uma série de assassinatos. Em outra DLC, chamada “Jack The Ripper”, Evie investiga o famoso Jack, o Estripador, DLC que conta com um aspecto mais sobrenatural e místico.

Para saber mais sobre Evie e a história de Syndicate, leia nossa análise do jogo.

Vale aqui também a menção honrosa para Adéwalé, protagonista negro da DLC “Freedom Cry” de Assassin’s Creed IV: Black Flag. O personagem, luta contra a escravidão ainda existente na época, liderando várias rebeliões e atacando navios de tráfico negreiro, além de enfrentar os Templários.

Chloe Frazer em : The Lost Legacy

Conhecido como a “Lara Croft homem”, Nathan Drake sempre foi a marca da franquia Uncharted. Porém, a Sony e a Naughty Dog, após ouvir o apelo de milhares de fãs, e com intuito de dar a devida importância para uma das personagens mais marcantes da franquia, colocou Chloe Frazer como a protagonista do jogo, que apesar de ser uma história paralela, recebeu tratamento digno e teve lançamento próprio, não sendo apenas uma DLC da série principal.

Com dramas próprios, porém um ar sempre engraçado e até debochado, Chloe brilha e cativa o jogador, em cenários paradisíacos e cenas de ação de tirar o fôlego.

O modo foto te permite capturar momentos únicos de Chloe, que hora precisa resolver puzzles, enfrentar os inimigos no “modo Rambo” ou se esgueirar no estilo stealth.

Um recurso único de Chloe no jogo, é o recurso lock pick, que a permite abrir fechaduras ou portas, ela possui também uma faca de escalada, que a ajuda a subir em determinados locais.

Chloe que deu as caras na franquia pela primeira vez em Uncharted 2, já teve um relacionamento com Nathan mas seguiu carreira solo, e é conhecimento por ser uma exímia ladra especialista em relíquias, além da “melhor piloto no negócio”.

No jogo, Nadine Ross também acompanha Chloe em grande parte de sua jornada, e garante bons momentos durante a campanha.

Tracer e Soldado 76 em

A Blizzard sempre trouxe mundos cheio de diversidade para seus jogos, claro, normalmente víamos uma diversidade mais fictícia, com personagens mitológicos e de diferentes raças. Em Overwatch não foi diferente, o jogo de tiro em equipes trouxe uma variedade muito grande de personagens, entre eles humanos, gorilas e robôs. Estes além de diferentes em aparência e raça, também estão divididos pelas mais diversas partes do “mundo” do jogo, fazendo referência direta a locais conhecidos como México, França, Japão e Rússia, mostrando também uma grande diversidade cultural. Apesar de suas diferenças, eles sempre atuam juntos em campo de batalha, seja pelo lado dos mocinhos ou dos vilões.

Em 2016, a Blizzard publicou uma HQ chamada “Reflexos” onde contava um pouco mais da historia de Tracer, na ocasião alguns personagens estão comemorando o Natal e Tracer aparece em casa, junto de uma personagem até então desconhecida, que ao ser presenteada com o cachecol, se revela a namorada da atiradora, trata-se de Emily. Tracer foi oficialmente a primeira personagem de Overwatch.

Lena Oxton, a Tracer, é britânica e atualmente se auto intitula uma aventureira, no passado ela já foi piloto e agente da Overwatch. Ela é conhecida por sua capacidade de se transportar de um local para outro numa espécie de “piscada”, além de fazer uso da mesma habilidade para reverter suas ações dos últimos segundos. Ela carrega duas pistolas de pulso de curto alcance e no jogo é uma heroína de ataque (ou dano). Sua frase de ação mais conhecida é “Cheers, love! The cavalry’s here!”.

Mais recentemente, em Janeiro, tivemos mais uma revelação. Essa talvez ainda mais impactante, principalmente para o publico masculino, normalmente mais intolerante ao tema diversidade. A HQ “Bastet” tinha como foco um pouco mais sobre a história de Ana, mas quem deu as caras e contou um pouco mais sobre seu passado foi Jack Morrison, o Soldado 76.

Em certo momento da HQ, Jack e Ana estão conversando e relembrando alguns momentos de seu passado, quando no meio de algumas fotos da época, Ana se depara com uma foto de Jack abraçado com outro homem, chamado Vincent.

Soldado revela que este homem foi alguém importante em seu passado mas assim como a maioria dos agentes da Overwatch, sacrifícios foram necessários e eles tomaram rumos diferentes na vida, hoje Vincent está “casado e feliz”. Michael Chu, escritor da HQ, publicou em seu Twitter uma mensagem confirmando que eles formaram um casal no passado, e que ambos são gays.

Sam em

Um bela família, com várias questões a serem resolvidas

Numa madrugada de 1995, Katie chega a sua casa em Oregon, Estados Unidos após um ano viajando pela Europa e ao invés de encontrar uma calorosa recepção de sua família, encontra a casa totalmente vazia e ainda com sinais da recente mudança, além de um bilhete de sua irmã Sam pedindo desculpas pela ausência e pedindo que ela não tente investigar sobre os recentes acontecimentos do local.

O que parece mais um jogo de terror onde passaremos algumas horas fugindo de alguma entidade ou espirito que assombra o local, mostra-se na verdade um jogo menos convencional com uma história impactante e cheia de detalhes, principalmente para os mais curiosos que com certeza vão explorar cada detalhe e compartimento secreto da casa.

Gone Home conta a história de uma família, que precisa vencer diversos problemas, que vão desde dificuldades no âmbito profissional, até abusos sofridos na infância. O pai, Terry, é um escritor com diversos problemas para desenvolver seu trabalho, que no passado foi abusado por Oscar Masan, antigo proprietário da casa. A mãe, Janice, apesar de parecer bastante equilibrada, começa a desenvolver sentimentos românticos em relação a um subordinado. A ausência do casal na casa, se dá entre outros motivos porque eles foram para uma espécie de retiro de aconselhamento para casais.

Mas o ponto de maior descoberta durante o desenrolar de Gone Home, é Sam, que está passando por uma fase de adaptação com o novo local e vem enfrentando dificuldades para se relacionar, típicos de adolescência, e descobre em Lonnie, um local de afeto que em pouco tempo se desenvolve numa relação romântica.

O interessante é que a história de Gone Home é contada aos poucos e sem nenhum indício óbvio do que o jogo realmente se trata, quase que servindo de isca para quem normalmente não jogaria esse tipo de jogo, seja pela proposta de gameplay quanto da história.

Varus e Neeko em

Valmar e seu amado Kai

Para um jogo com o alcance e a base de fãs como League of Legends, tratar de questões de diversidade pode ser difícil, mas a Riot já se pronunciou publicamente sobre e disse que a diversidade é um “objetivo explícito” para a desenvolvedora.

Atualmente, League of Legends possui dois campeões gays revelados. O primeiro deles é Varus, que teve seu passado revelado através de uma nova história escrita para o jogo que conta que o campeão é na verdade a fusão de três outros personagens.

No passado, o caçador Valmar e seu amado Kai, ambos gays, levaram seu amor até o final e acabaram morrendo juntos após um confronto, em seus últimos momentos, ambos caíram numa espécie de portal onde encontraram um Darkin, um espírito ancestral maligno que acabou se fundindo aos dois, fazendo deles uma espécie de receptáculo. Dessa fusão entre os três, surgiu um ser repleto de fúria e vingança: Varus.

Na história contada através de uma HQ, é dito que o amor e a união do casal, é o que balanceia o lado maligno de Varus oriundo do Drakin, e permite que este se contenha em sua vingança e sede de destruição, atrapalhado pelas “vozes em sua cabeça”.

No jogo, Varus é um dos atiradores mais utilizados durante as partidas, suas habilidades são fáceis de entender e se adaptar, sua ultimate da ao jogador bastante controle de grupo.

A segunda personagem gay de League of Legends é Neeko. Numa história divulgada sobre a personagem, a Riot descreveu sobre o passado de Neeko até o momento atual, onde é confirmado a sexualidade da personagem.

Suas frases no jogo já davam a entender isso, pois a personagem parecia gostar mais de campeãs do sexo feminino do que de campeões masculinos. O roteirista sênior de League of Legends, confirmou através das redes sociais que Neeko se identifica como lésbica.

Em sua história, Neeko aparece como um dos membros de uma tribo perdida de Vastaya, os Oovi-Kat. Neeko é uma campeã bastante versátil devido a sua habilidade de se transformar em outros campeões e por isso é utilizada nas mais diversas rotas.

Em um jogo com uma comunidade tão grande como League of Legends, uma lore que reforça a diversidade em seus personagens é muito importante já que os próprios jogadores são muitas vezes alvo de algum tipo de preconceito, e é legal ver como em sua essência o jogo apoia essa causa.

Dorian em

Dorian Pavus é um mago muito habilidosos de Tevinter, ele sempre teve tudo do bom e do melhor, mas é gay, o que é quase que abominado pela nobreza, que não o aceita.

A repulsa por sua sexualidade é tanta, que seu pai, faz uso de magia de sangue, considerada proibida, para tentar mudar sua sexualidade. É no mínimo conflitante pensar que alguém é capaz de passar por cima de algo que considera um tabu, para tentar sobrescrever outro tabu, que na prática é um preconceito e questões pessoais mal resolvidas.

Apesar de ser um jogo de época num mundo fictício, o jogo faz um paralelo muito bom com o momento em que vivemos, onde muitos jovens não são aceitos pelos pais principalmente nessa fase de descobertas, e pais que recorrem aos mais diversos meios para tentar “converter” seus filhos para aquilo que acreditam ser o certo.

Dorian serviu de incentivo para diversos textos e matérias sobre a representatividade do personagem na época do lançamento do jogo.

Você em Read Only Memories

Seja quem você quiser, ou não rsrs

Sim, você. Em Read Only Memories você pode ser quem você quiser. O jogo que esbanja representação, te coloca como um repórter investigativo, tentando desvendar um mistério acompanhado de um dispositivo que parece uma agenda inteligente chamada Turing, que te ajuda na investigação.

No momento de “selecionar seu personagem”, você pode ter qualquer identidade de gênero, ou se desejar, nenhuma. Você pode ainda escolher por quais pronomes deseja ser chamado, e Turing irá responder de acordo com a escolha.

Existe ainda uma grande representação de orientações, gênero e diversidade racial em Read Only Memories.

Em determinado momento do jogo ocorre algo inusitado envolvendo Turing também, pois normalmente nos referimos ao mesmo como “ele” devido a sua cor azul, e o próprio abre o questionamento, sem saber ao final definir se é “he” (ele) ou “she” (ela).

Drogas, adolescência, bullying, sexualidade e uma catástrofe. Eu poderia citar que a “franquia” Life Is Strange está nessa lista apenas por essas cinco palavras, que definem bem por cima, alguns dos temas do jogo chegou sem muito alarde mas conquistou todos que jogaram, e eventualmente terminaram todos os episódios do jogo, que por motivos financeiros e criativos, foi lançado nesse formato.

Ambientado na cidade fictícia de Arcadia Bay, Oregon, jogamos na pele de Max, uma estudante do ensino médio que descobre uma habilidade especial que a permite voltar no tempo através de lembranças ou fotografias, semelhante ao filme Efeito Borboleta, que inclusive serve de influência direta para o jogo. Toda ação tomada por Max no passado, cria um “efeito borboleta” nas ações do presente.

Ela e sua amiga Chloe, se vem em meio a uma grande trama, que envolve o desaparecimento de uma amiga envolvida com um traficante de drogas, assassinatos e até o suicídio de alguma amiga do colégio vítima de bullying por ter sido gravada beijando várias pessoas durante uma festa.

Durante o jogo, tentamos evitar o acontecimento destes e outros eventos ruins, mas acabamos percebendo que tudo desencadeia em outros eventos em alguns casos ainda piores, onde mais vidas são perdidas, realidades alternativas que se mostram ainda mais sofridas do que aceitar as fatalidades do presente.

No meio do processo descobrimos também o amor entre as duas, duramente repreendido por uma sociedade conservadora e cheia de tabus, que reprime e julga. No final, após vivenciar tanta coisa, somos levados a um lindo porém inevitável final.

Mas…

Nem tudo é legal e inclusivo como a gente pensa. Enquanto existem jogos e desenvolvedoras trazendo personagens fora do estereótipo padrão para dentro dos videogames, alguns “fãs” acabam boicotando algumas dessas ações, como foi o caso de alguns desenvolvedores de V, criticados por inserir mulheres no jogo. Segundo os jogadores, a adição representava “imprecisões” no fator histórico do jogo. Porém, os desenvolvedores foram enfáticos na adição ao jogo.

É comum também ver vários “gamers” atacando mulheres dentro e fora dos jogos, apesar de existirem diversos jogos de peso com protagonistas femininas, essas só são reconhecidas porque “são fortes”, é como se elas tivessem que se provar superior aos demais para merecer estar ali, quando na verdade as oportunidades de ocupar esse espaço deveriam ser iguais.

Equipes de eSports femininas também são constante atacadas e/ou chamadas de inferiores. O já citado, League of Legends, é constantemente associado ao gênero feminino, de maneira a ofender seus jogadores, e claro, personalidades LGBT+ no mundo dos games são sempre ofendidos por suas “diferenças”.

Ainda existe muito a ser feito, por hora, devemos valorizar quem já deixou de viver no século passado.

Software developer, 28 anos, já trabalhou como social media, atualmente faz de tudo um pouco no Conversa de Sofá e escreve sobre eSports no Arkade!