Análise Bloodshore (PS4 e PS5)

Novo FMV da Wales Interactive, Bloodshore acompanha os participantes de um reality show battle royalle onde vale tudo pela fama.

Bloodshore Review

Já comentei aqui no Conversa no meu review de Night Book que tenho um fraco por jogos em FMV, desde os mais sérios como Late Shift e Her Story até os mais galhofas como Night Trap. E confesso que tenho certa preferência pelos mais exagerados ou que não se levam tão à sério.

Para quem não tem familiaridade com o termo, FMV significa full motion video, e é uma técnica que utiliza filmagens reais ao invés de gráficos gerados através de modelagem 3D ou outras técnicas de animação. Basicamente, se trata de um filme interativo, e dessa forma toda a jogabilidade fica resumida a escolher opções de ação ou diálogos que alteram a narrativa.

Algumas dessas escolhas contribuem para mudanças nas atitudes dos personagens, abertura de novas árvores de diálogos, ou que até mesmo podem alterar trechos inteiros da história, com ramificações que, normalmente, levam a vários finais diferentes.

Formando times em Bloodshore

E , novo título desenvolvido pela Good Gate Media e publicado pela , é um exemplo de FMV que tenta chocar através do exagero de sua temática e pela crítica a determinados comportamentos sociais modernos, com leves pitadas de humor em sua receita.

A história não é nova, mas é bastante atual.

Cinquenta competidores são deixados em uma ilha onde um reality show de vida e morte, chamado Kill/Stream, é filmado e transmitido para o mundo inteiro. O programa já está em sua décima terceira temporada de sucesso e muitas polêmicas.

Nesse battle royale da vida real os participantes podem se unir em grupos na tentativa de obter vantagens iniciais e sobreviver mais tempo no jogo, mas ao final apenas um vai sair vivo e milionário dessa história. O sobrevivente leva para casa 10 milhões de dólares e se torna uma celebridade instantânea. Contudo, talvez o custo da sobrevivência e da vitória seja pesado demais para alguns.

Consequências pesadas

Arnold Schwarzenegger já viveu um papel similar em O Sobrevivente, filme de 87, e Jennifer Lawrence se tornou uma queridinha de Hollywood com Jogos Vorazes. E mesmo que a temática battle royale já começa a dar sinais de cansaço nos videogames, não poderia ter tido a sorte de uma janela de lançamento melhor. Com o sucesso de Round 6, da Netflix, o tema de competição até a morte por fama e glória nunca esteve tão em voga.

Os participantes de Kill/Stream vão desde atores fracassados até lutadores de MMA, streammers, podcasters, gamers e vloggers — esses últimos com o claro objetivo de apelar para uma conexão com o público mais jovem — contudo o que todos tem o comum é o fato de ou estarem em decadência ou precisando urgentemente dos seus 15 minutos de fama para estourarem em suas mídias sociais.

A exposição que o programa gera é tamanha que mesmo quem desiste e pede para sair logo no início consegue uma fama considerável. Mas, nessa edição os produtores tem uma surpresa nada agradável para os participantes: desistir não é mais uma opção e definitivamente só um vai sair vivo da disputa. Uma crítica a todos nós que concordamos com os Termos de Uso sem ler ao menos uma linha deles.

Decisões em Bloodshore

Aliás, por trás de todo seu exagero e humor espalhafatoso — principalmente do psicopata apresentador da atração — é repleto de críticas sociais e temas sensíveis.

O game não se limita a tocar no dilema “o que você seria capaz de fazer pela fama?”, mas também joga sal na ferida de como a busca pelo like dessensibilizou o ser humano ou como o público confere legitimidade às maiores atrocidades em troca do entretenimento vazio e raso que só um reality show é capaz de fornecer. E se não bastasse, o título vai um pouco além ao abordar assuntos como preconceito, sexismo e swatting.

Todos estão presos à tela da TV durante a transmissão de Kill/Stream. Ricos, pobres, mendigos, pessoas em bares, quem está esperando o metrô para ir trabalhar e até mesmo crianças. Todos assistem a violência extrema do reality com a naturalidade de quem assiste a vídeos de gatinhos no YouTube.

Espectadores vidrados em Bloodshore

Existem ainda segredos que são importantes para trama e que tornam a narrativa mais interessante, mas como o game é focado em contar uma história e sempre mantenho meus reviews livres de spoilers, não vou entrar nesse ponto, assim quem quiser jogar pode ter a mesma surpresa que tive.

E mesmo que a reviravolta aconteça já nos primeiros minutos, é o que você faz com essa informação, ou com quem você compartilha ela, que fará a diferença no não tão longo prazo.

, assim como a maioria dos FMV’s da Wales, tem uma duração curta, variando de uma hora a uma hora e meia por jogada, apostando assim no valor replay e no interesse do jogador em fazer várias jogadas alterando suas escolhas na tentativa de obter outros resultados e assistir todos os finais possíveis. Ao todo, segundo os desenvolvedores, existem mais de oito horas de filmagens para quem conseguir todos os cenários possíveis.

Nick Romeo em ação em Bloodshore

Vale ressaltar que apesar de ser um produto para um nicho bem específico, o game está todo legendado em português do Brasil, o que sempre é um ponto positivo para a acessibilidade a obra, principalmente em um título que depende muito da compreensão da sua narrativa para avançar. Além disso, outro fator determinante para que essa história funcione são as atuações dos atores, que aqui são boas e convincentes em sua maioria, o que nem sempre é lugar comum para jogos do estilo.

Devido a especificidade do seu gênero, recomendar para todas audiências (acima de 16 anos) é uma tarefa complicada e que talvez deporia contra o próprio estilo, afinal nem todo mundo ainda hoje compra a ideia de que filmes interativos são jogos.

Mas se você gosta de games em FMV, abraça a temática de crítica a reality shows, ou mesmo se está órfão de Round 6 e quer mais histórias desse tipo (mesmo as com limitações de orçamento, como aqui), com certeza, vale a pena conferir o que tem a oferecer.

Apresentador psicopata

A análise de foi escrita com base em uma cópia de review gentilmente cedida pela assessoria de imprensa do game. Também disponível para Microsoft Windows, Mac, iOS, Nintendo Switch, One, e X.

Papai Platina
(Pouco) conhecido como Willian. Marido, pai de três filhos maravilhosos, fã de Stephen King, filmes toscos e trophy hunter nas horas vagas. No Twitter como @papaiplatina e willianmarques na PSN.