Análise Shing! (PS4)

Shing! é um beat ’em up com uma jogabilidade diferente e interessante, mas seu humor cria situações constrangedoras em vários momentos.

Shing! beat'n up review

A nostalgia está na moda. Não é por acaso que séries como Stranger Things, filmes que apelem para o visual oitentista, com seus neons rosa e cabelos extravagantes, e livros como Jogador Número 1 tenham angariado tantos fãs mundo afora.

Esse sentimento é uma ferramenta de marketing poderosa, responsável pelo ressurgimento de franquias e produtos que antes estariam restritos às estantes de colecionadores ou a conversas de bar saudosistas, do tipo “no meu tempo é que era bom”.

Trazendo o assunto para o campo dos videogames, essa nostalgia é responsável pela revitalização de estilos artísticos, como a pixel art, e pela retomada de gêneros que se não estavam mortos e enterrados, curtiam uma aposentadoria involuntária. E um desses gêneros é o beat ’em up.

Wilhelm em Shing!

O beat ’em up nunca morreu, mas sua força foi diminuindo e cedendo lugar a um de seus derivados mais famosos: o hack ‘n slash. Exceto por Scott Pilgrim, da Ubisoft, parecia que o jogo de briga de rua era coisa do passado. Contudo, justamente por conta dessa onda nostálgica recente, de uns anos para cá o estilo ganhou fôlego novo.

E apesar de Streets of Rage 4, o remake de Battletoads e o relançamento de Scott Pilgrim Vs. The Word serem os maiores expoentes desse interesse renovado, em termos de sucesso, vários outros menores estavam pavimentando esse caminho, como Dragon’s Crown, Castle Crashers, o brasileiro 99 Vidas, River City Girls, Cobra Kai: The Karate Kid Saga Continuese 9 Monkeys of Shaolin, que tive o prazer de escrever review aqui para o site.

E dessa vez, trago aqui a análise do beat ’em up mais diferente em termos de mecânicas que tenho lembrança de ter jogado recentemente: Shing! (com exclamação e tudo) da desenvolvedora Mass Creation.

Boss Shing!

Confesso que o gráfico vetorizado do game me afastou inicialmente e que comecei a jogar com preconceito. “Não tem como um jogo com esse visual ser bom”, pensei. Felizmente eu estava parcialmente errado e, apesar do visual ainda não me agradar, gostei de como a jogabilidade dele foi criada.

Diferente dos brawlers tradicionais, em que a combinação de ataques fortes, fracos e especiais é feita pressionando diferentes botões em sequência, aqui todos os golpes são feitos com combinações de movimentos direcionais do analógico direito. E isso é o que o título traz de inovador para a mesa. Um conceito simples, muito usado em shoot ’em ups (ou jogo de navinha se você preferir), e que foi muito bem adaptado para um beat ’em up, por incrível que pareça.

Colocando o analógico para frente o personagem dá um golpe simples. Um toque para cima lança o jogador para o alto onde pode construir ataques aéreos. Diagonal para baixo resulta em um ataque abaixo da cintura, enquanto diagonal para cima cria um golpe alto, e por aí vai. Adicione a essas sequências simples meia-luas, rotações, toques rápidos para baixo e para cima no analógico e você realiza combos com uma facilidade incrível, que variam de acordo com o estilo de luta e arma de cada um dos quatro personagens.

Área secreta Shing!

Shing! pode ser jogado em co-op local para até 4 jogadores, cada um controlando um dos protagonistas, mas se você for brincar sozinho, assim como eu, é possível alternar entre eles com um toque no botão do d-pad, a qualquer momento. Também muito simples, nada inovador, mas efetivo.

Além desse sistema de combos, o jogador tem acesso a power-ups temporários ao derrotar inimigos específicos. Digamos que um inimigo tenha poderes elétricos, ao matá-lo você consegue imbuir a sua arma com esse mesmo tipo de dano por uma quantidade limitada de golpes. Existem quatro tipos de power-ups e eles podem ser acumulados.

Isso cria uma dinâmica interessante visto que alguns inimigos só podem ser derrotados quando o jogador quebra as suas defesas utilizando esses ataques elementais, ou através de uma defesa perfeita, que funciona como uma espécie de parry e riposte, clássico dos jogos de combate souls-like, por exemplo. Além disso, é possível esquivar ou fazer defesas simples, o que deixa esse combate ainda mais fluído.

Puzzle em Shing!

Para tentar minimizar a repetição, que poderia deixar Shing! enjoativo, são introduzidos inimigos com mais recursos e mais poderosos ao longo das fases, mesmo que os visuais sigam o padrão mudou-a-cor-do-personagem-é-outro-inimigo, clássico do gênero. Outro elemento que quebra a mesmice são as Boss Fights, que são, em sua maioria, muito bem trabalhadas, algumas inclusive funcionando mais como um quebra-cabeças do que uma luta em si. Exceto por um dos Chefes, gostei muito do combate com todos os outros.

Mesmo assim, em determinados momentos senti que o game se arrastou um pouco mais do que deveria. Mas os verdadeiros problemas de Shing! são relacionados a sua história.

Apesar de beat ’em ups serem quase puramente mecânicos, alguns tentam construir uma história mais elaborada ao invés de apenas introduzir um contexto geral para sair na mão. Shing! tenta montar uma narrativa mais completa, introduzindo pequenos diálogos e cutcenes ao longo das fases, mas o problema não é nem a profundidade dessa história (que é quase inexistente), mas o humor usado para contá-la.

Cutcene

Não me entenda mal, gosto quando personagens não se levam a sério e fazem piadas com tudo. Homem Aranha e Nathan Drake, de Uncharted, são especialistas nisso, e eu adoro. Obviamente não estou querendo comparar a qualidade de escrita de um jogo indie a titãs da indústria e seus orçamentos quase infinitos. Mas faltou bom-senso em algumas partes.

O humor de Shing! é ultrapassado e sexista. Permeado por piadas de duplo sentido envolvendo as personagens femininas, somado aos visuais padrões delas, o jogo passa de engraçado a constrangedor em vários momentos. A frequência com que esses momentos acontecem não é extremamente alta, mas alta o suficiente para incomodar.

Trajes menos expositivos para as personagens podem ser desbloqueados com pontos de estilo, recebidos pela variação de personagens, combos, tempo de conclusão das fases e dano sofrido. Dessa forma, se isso for algo que te incomode, parte do problema pode então ser minimizado.

Seleção de personagens

O ideal seria que ele não existisse, ou mesmo que tivesse um contexto (aceitável ou não), como feito em Bayonetta, por exemplo. Foi algo que me desagradou, mas que pode não ser um problema para todos.

Contudo, se você gosta de jogos do estilo, ou se o combate é o que importa na sua tomada de decisão, o diferencial entre Shing! e seus concorrentes no quesito jogabilidade faz dele um dos beat ’em ups mais únicos da atualidade. Além da versão de o game está disponível em várias outras plataformas, como Windows, Mac, Linux, Switch, Xbox Series, e 5, totalmente legendado em português do Brasil.

Versão anime dos personagens

A análise de Shing! foi escrita com base em uma cópia de gentilmente cedida pela assessoria de imprensa do game.

Papai Platina
(Pouco) conhecido como Willian. Marido, pai de três filhos maravilhosos, fã de Stephen King, filmes toscos e trophy hunter nas horas vagas. No Twitter como @papaiplatina e willianmarques na PSN.